08/04/2008

Novo endereço

Como os blogs hospedados no Blogspot funcionam dia sim, dia não, fui forçada a abandonar este :-(

Mas o papo continua!

O "Cachorro Frito" agora atende pelo nome de "Direto da China" e o blog funciona no site da Revista Viagem e Turismo (Editora Abril).

(clique na imagem para acessar o novo blog)

Ou vá direto aos posts:

  • Aprenda a pechinchar com os chineses
  • Pechincholândia: Onde comprar pirataria em Pequim
  • Confusões com a tocha - capítulo 286
  • "Viagem da harmonia"
  • 10 bons restaurantes em Pequim
  • Churrasquinho de gafanhoto
  • Somos ou não somos diferentes?
  • Ni hao*!



    23/08/2007

    Jogo dos 7 erros

    Quem achar mais diferenças ganha um pirulito!



    Dois modelos de Mercedes Smart ForTwo em cores diversas? Errado. O carro preto é um original, fabricado pela montadora alemã Mercedes. O vermelho chama-se “Shuanghuan Noble” e é um ‘Made in China’, produzido pela China Automobile Deutschland, com pouca personalidade.

    Pouca, aliás, é uma metáfora gentil. O carro chinês é uma cópia descarada do clássico alemão. Como diria alguém que conheço, “é cuspido e escarrado” (sic). A única diferença é que a versão oriental comporta até quatro passageiros. A européia, dois.

    Não bastasse a cara-de-pau por ter plagiado algo de forma tão escancarada, os piratas asiáticos ainda pretendem fazer concorrência com a própria Mercedes no terreno dela.

    Até agora, o Noble só era visto aqui na China. Mas deve começar a ser vendido no Velho Continente logo depois do Salão de Frankfurt, mês que vem. Assim anunciaram os “autores” do modelo – que, como pouparam em criação, pesquisa e desenvolvimento, planejam massacrar a concorrência com um preço final mais baixo: 7.000 euros (uns 19.000 reais).

    Os executivos da Mercedes estão enfurecidos. Fizeram uma notificação legal com a intenção de barrar a comercialização do carrinho chinês. E um porta-voz da empresa fez questão de avisar: "Levamos a propriedade intelectual muito a sério. O Noble é uma tentativa grosseira de copiar um produto nosso".

    Com ar blasé, o diretor da China Automobile Deutschland, Klaus Schlössl, defende-se, admitindo que os modelos têm "certa similaridade", mas que "apenas em alguns ângulos, assim como muitos outros no mercado". Aliás, Klaus ainda opina que "a Mercedes não deveria fazer tanto estardalhaço sobre o assunto".

    Troféu Óleo de Peroba pra esse senhor, por favor!

    07/08/2007

    Nada de reencarnação



    Essa é ótima: “China proíbe por decreto a reencarnação do Dalai Lama”. A partir de 1 de setembro, vira lei.

    A insólita ordem pretende evitar a sucessão do atual líder espiritual daquela nação de monges, cujo nome vou evitar escrever aqui por uma pura questão de prudência (e pesquisas cibernéticas automáticas contra blogspots escritos na China...). Como todo mundo sabe – menos os cidadãos chineses que nunca saíram do país –, este tal lugar está ocupado militarmente, desde os anos cinqüenta pelo governo de Pequim*.

    Agora, além de controlar de perto o movimento dos budistas lá ‘naquele lugar’, o Estado comunista chinês resolveu impor mais autoridade, afirmando que “o chamado Buda vivo reencarnado é ilegal e inválido sem a aprovação governamental”. O texto, formulado pela Administração Estatal para Assuntos Religiosos, pretende podar a influência do Dalai Lama e bloquear sua futura sucessão.

    O atual reencarnado de Buda, 72 anos, vive no exílio, mas faz uma contrapropaganda ativa do regime político chinês. Por isso, é uma constante dor de cabeça para os dirigentes do Partido Comunista - sempre preocupados com sua reputação internacional.

    A nova proibição (a de reencarnar!) alcança ainda todos os “lamas” (mais conhecidos como “tulkus”, os sábios reencarnados, que atuam como líderes religiosos e supervisionam a formação dos monges). E, de quebra, também fica estabelecido que não se pode encontrar outro “Panchén Lama” (a segunda figura-chave do budismo: o futuro Dalai Lama reconhecido em um menino pequeno). Só monastérios creditados pelo governo da China.

    Isso para evitar "confusões" como a que aconteceu em 1995, quando o atual Dalai anunciou que havia encontrado o novo Panchén Lama. O garoto - então com seis anos e filho de uma família pobre do campo - foi levado pela polícia chinesa e ninguém teve mais notícias dele. Totalmente desparecido, é considerado o preso político mais jovem do mundo. Aliás, em 1996, num intento de tapar o sol com a peneira, as autoridades chinesas providencialmente designaram um Panchén Lama substituto: o filho de um membro do Partido Comunista, que chegou a participar de cerimônias na China. Mas ele nunca foi, de fato, reconhecido pelos monges, porque a tradição budista explicita que ninguém de fora daquele tal país pode participar do processo de busca e reconhecimento do novo Buda vivo, exceto o Dalai Lama (que, para os budistas, representa um deus de carne e osso e, quando morre, leva até 49 dias para reencarnar em um menino especial – cujo caráter específico já vai sendo apresentado desde o dia em que nasce).

    *A China afirma que o tal país dos monges faz parte de seu território desde o 13º século. O Dalai Lama havia 'libertado' esta região em 1951, mas em 1959, após uma rebelião frustrada, exilou-se e estabeleceu um governo em Dharamsala, na Índia. Desde então, Pequim mantém um controle rigoroso dos assuntos religiosos na região do Himalaia. Pretende conter a colossal força do budismo, já que, em poucas palavras, comunismo e religião são incompatíveis. Pro primeiro funcionar, não pode haver nenhuma outra autoridade liderando o povo. Nem Deus.

    06/08/2007

    Céu azul

    Sabe aqueles dias inspiradores, em que você abre a janela, dá de cara com um sol brilhante e, motivada pelo panorama, sente vontade de faltar o trabalho, pôr um biquine, fazer um pic-nic ao ar livre, sair de expedição pela floresta ou pedir alguém em casamento? Não. Hoje não é é um dia desses.

    Um amigo expatriado acaba de circular por internet uma foto que tirou hoje de manhã, comparando o céu de hoje e o de outro dia:

    Vista da janela do escritório dele, outro dia qualquer

    Mesma vista hoje


    E não é como aquele fog londrino dos dias de chuva e cerração, não. Os termômetros marcam 28°C e a umidade relativa do ar é de 51%. Como aqui nunca chove, duvido muito que hoje caia uma gota.

    Aí, vem aquela pergunta incômoda: "De onde vem tanta neblina, então?". Sou da opinião de que, se você não está no setor de embarque do aeroporto, o melhor é aproveitar a estada em Pequim sem procurar muitas respostas nesse tema. Como 16 das 20 cidades mais poluídas do mundo são chinesas, segundo o Banco Mundial, o lance é aproveitar BEM o tempo que nos resta!

    Em tempo: Cost of Pollution in China: Economic Estimates of Physical Damages (by Bird)

    03/08/2007

    Barcelona em Pequim

    Os chineses são grandes fãs das ligas de futebol européias - especialmente da espanhola. Por isso mesmo, de quando em quando, os clubes grande de lá vem dar uma desfilada aqui, jogar uma partidinha e arrecadar um trocado. Este fim-de-semana, é a vez do Barça. Desembarcaram ontem em grande estilo, com torcedores afoitos, esperando os craques no aeroporto.


    O mais querido é, claro, "Xiao Luo" (Ronaldinho Gaúcho)... que pediu pra ser brega e entrou na fila 10 vezes, cá pra nós.


    Até alguns dias atrás, muita gente nem sabia contra quem o Barcelona jogava ("Quem? Unidos de Pequim"? "Fiés de Tiananmen"?). Mas quem liga? O lance é o clima. Ingresso na mão, amanhã comparecemos todos ao estádio Fengtai com torcida organizada entre os expatriados e tudo. Barçaaaaaa!!!

    02/08/2007

    Parece? Quase é

    Não faz falta dizer que a China é o paraíso da pirataria. Mas há diversas categorias de cópias.

    Caídas do caminhão - As imitações mais cobiçadas, naturalmente, são aquelas que uma amiga minha diz que "caíram do caminhão". Não são nem cópias. São exatamente os mesmos produtos que vão pras lojas, com etiqueta e tudo. Uma porção "extra" deles vai parar no mercado paralelo (e não perguntemos "como?" porque - ora, pipocas - isso aqui é a China!!!). Mas é mais difícil encontrar esses artigos. Quando você dá com um deles, na maioria das vezes, está num labirinto escuro, numa casa da periferia, num lugar bem suspeito... E os vendedores estão sempre preocupados em saber quem você é. Jornalista (óbvio!) é persona mais que non grata em ocasiões do gênero. Todas as vezes que me meti em roubadas desse tipo, dizia com aquela cara de boa-pessoa: "sou estudante de chinês!"

    Cópias fiéis... ou nem tanto - Aí, vem a categoria das cópias que podem ser compradas nos mercados como o Xiushui (a.k.a. Silk Market), o Yashou ou afins. Há melhores e piores. Conheço quem garanta estar satisfeitíssimo com tudo que arrematou por lá. Mas é mais freqüente, entretanto, que, mais dia, menos dia, esse tipo de cópia acabe dando problema: quebra, rasga, pára de funcionar... Diz um amigo: "É o problema de não ter personalidade própria. Se gasta tanto tempo tentando copiar o aspecto, a cor, o logotipo, que a qualidade vai pro beleléu".

    Produtos 100% chinês com orgulho de ser - E, por último, vem uma categoria que me diverte muito. Adoro ir aos mercados e descobrir "coisas novas". À primeira vista, elas parecem ser quem não são (assim, já poupam gastos em marketing!!!). Mas, vistas de perto, são chinesíssima. Perceba:



    16/07/2007

    Uma pausa... No ocidente!

    Viver na China é uma experiência... como dizer? "Intensa". Beeem intensa. Tanto que, de quando em quando, é (mais que) necessário fazer uma pausa. Férias!

    Com a intenção de recarregar baterias - e ver os seres queridos, que moram do lado de lá do mundo (!!!) - esta blogueira que vos escreve faz uma pausa. E, volta, em algumas semanas, com mais novidades sobre o mundo chinês.

    "Ocidente amaddo", aqui vou eu!!!

    13/07/2007

    Falsários: bolinhos com papelão

    Os repórteres da China Central Television - a maior emissora de TV do país - descobriram que alguns ambulantes estavam vendendo bao zi (esses típicos bolinhos chineses, feitos no vapor) com recheio de papelão.

    Usando câmeras ocultas, os repórteres gravaram a fraude num mercado de rua aqui de Pequim. O vídeo, depois de emitido pela CCTV, começou a rodar o mundo, através dos noticiários internacionais.

    Segundo confessa um dos tais "cozinheiros" piratas, a receita era simples: usar 60% de papelão e 40% de carne (de procedência não especificada). Moldar, cozinhar e, voilà, bolinhos crocantes, fresquinhos e baratinhos. "Vai um bao zi aí, freguesa?"

    Para mascarar o gosto (ou a falta de), ainda tinham uma dica: acrescentar muito tempero, no final. Ou duas, até: Como papelão é duro, soda cáustica no molho, para amolecer o ingrediente principal!

    Tá vendo? E ainda tem gringo que acha ruim comer carne de cahorro! "Tá reclamando de barriga cheia".

    Clique aqui para assistir o vídeo com narração em português (pela BBC Brasil)

    12/07/2007

    Camisinha pra que te quero

    Num surto de criatividade e ousadia (para os padrões locais), os chineses mostraram vários usos alternativos pra boa e velha camisinha-de-vênus.



    Em um simpático desfile, aqui em Pequim, elas viraram vestidos, chapéus, enfeites (de gosto discutível) e até mesmo relógios.



    Foi a “4° Expo de Produtos e Novas Tecnologias de Saúde Reprodutiva da China”, organizada pela Guilin Latex Factory, a maior fabricante chinesa de camisinhas – que aproveitou para promover o uso do preservativo contra a Aids.



    As modelos desfilaram entre delirante efeitos especiais de bolhas de sabão para exibir vestidos de noiva, trajes de noite em escamas, biquínis extravagantes, roupas chinesas tradicionais e outras peças feitas inteiramente de camisinhas – infladas ou não.




    Em tempo: Originalmente a China qualificou a Aids de "doença do Ocidente capitalista e decadente". Considerava "um problema de homossexuais, profissionais do sexo e usuários de drogas". Todas categorias que, oficialmente, não existiam na China comunista. Há pouco tempo, a sociedade despertou para o problema, que - oh! - também assola este país. Segundo as estimativas (não há uma contagem formal), atualmente cerca de 650 mil chineses têm o vírus HIV.

    Fotos: Newsphoto.com.cn

    11/07/2007

    Moscas a 0,07 dólares

    Esta saiu no Estadão, pelo Paulo Vicentini:

    Está aberta a temporada de caça às moscas no município de Louyang, na província chinesa de Henan. Seus administradores estão oferecendo um prêmio de sete centavos de dólar para cada mosca entregue às autoridades sanitárias de seus distritos regionais. "Estamos procurando limpar a nossa imagem, ao mesmo tempo em que promovemos a higiene pública", garantem as lideranças locais.

    O distrito de Xigong, por exemplo, pagou US$ 125 por 2.000 moscas entregues no dia primeiro de julho, durante o lançamento da "Grande campanha municipal contra as moscas e os mosquitos". "Acreditamos que esta é a melhor maneira de induzirmos as pessoas a cuidarem mais de seu entorno", declarou Hu Guisheng, diretor do escritório administrativo do distrito, ao justificar a inusitada iniciativa em Louyang, um município com 1,55 milhão de habitantes.

    Segundo a mídia estatal, a localidade luta para conquistar o título nacional de "Cidade Higiênica", recompensa habitualmente concedida aos municípios que cumprirem os dez critérios estabelecidos pelo governo central chinês em 2005, com destaque para as medidas de prevenção e gestão de agentes transmissores de enfermidades. "Eles (os critérios) exigem que as cidades controlem de forma efetiva a proliferação de ratos, moscas e mosquitos, entre outros agentes", afirmou a imprensa local.

    A iniciativa, entretanto, também atraiu pesadas críticas. Para muitos, tudo não passa de um golpe de marketing, com "pífios resultados" e "desperdício de dinheiro público".

    "Se trata de chamar a atenção? Bem, que mal há nisso? O dinheiro está sendo adequadamente empregado", reagiu Hu, sem revelar o destino que concederá às milhares de moscas atualmente empilhadas nas instalações sanitárias da cidade.

    09/07/2007

    Verão em Pequim

    A foto é do ano passado, mas tenho certeza de que ainda corresponde com a realidade em algumas cidades aqui na China:


    Quando os termômetros subiram demais, o governo de Pequim não teve dúvidas. Como "solução" oficial, BALDES COM GELO nos ônibus urbanos!!!

    PS: A foto original é do jornal China Daily, uma edição de julho de 2006. Mas de tão "exêntrica", foi recortada e virou adorno na geladeira de amiga expatriada. Uma obra de arte!

    08/07/2007

    Pasta que cai os dentes

    No mercado, fiquei na dúvida, na hora de escolher a pasta de dente (quem lê jornal sabe que houve diversos casos de produtos contaminados – e retirados do mercado – aqui na Ásia, na Europa e até aí no Brasil).

    Estudei minuciosamente as opções e peguei a que, a meu ver, parecia mais “confiável” - porque era uma marca internacional, com muita tradição, gastos enormes em publicidade, blá blá blá...

    Chego em casa e, checando as notícias na internet, dou de cara com esta: “Pasta de dente Colgate falsa”.



    Pois é. Viver no país da pirataria é dureza, viu?!

    As novas maravilhas

    A Grande Muralha chinesa, entrou pra lista das Novas 7 Maravilhas mundiais.


    Construído para ligar fortificações já existentes, o enorme muro foi originalmente criado como um sistema de defesa contra as invasões mongóis, durante a dinastia Ming, entre os séculos 14 e 17.


    Fica no norte de Pequim e tem mais de 600 quilômetros de extensão (mais que a distância entre Rio e São Paulo).


    Ainda há quem acredite que a Grande Muralha pode ser vista (a olho nu) por astronautas, no espaço. Balela.


    Mas a Grande Muralha é certamente um dos pontos turísticos mais célebres do país.


    Os trechos mais visitados são Badaling, Simatai, Jinshanling, Mutianyu, Gubeikou, Huanghuacheng e Jiankou – onde foram feitas reformas.


    Nesses pontos, você pode, inclusive registrar a "conquista", tirando fotos como um imperador:


    Comprando um diploma:


    Ou uma medalha com seu nome:


    O importante é mostrar ao mundo que você esteve ali ao vivo.


    As outras 6 maravilhas mundiais: Além do nosso carioca Cristo Redentor – o Corcovado! – , foram eleitas as ruínas de Machu Picchu (nos Andes, Peru), o colossal Coliseu romano (Itália), a cidade arqueológica de Petra (perto de Amã, Jordânia), o mausoléu romântico Taj Mahal (Agra, Índia) e a pirâmide maia de Chichén Itzá (Yucatan, México). Ficaram de fora alguns candidatos de peso, entretanto.

    07/07/2007

    O inimigo japonês

    Japão, japonês, gostar de coisas japonesas, falar bem do desenvolvimento nipônico... Tudo isso é quase um tabu aqui na China. Os chineses ainda não tragaram os anos de ocupação do exército vizinho.

    Há exatos 70 anos, também num sete de julho, os japoneses invadiram Pequim e começaram um período negro da história asiática – a IIª Guerra Sino-japonesa –, que durou oito anos e trucidou cerca de 300 mil civis, entre homens, mulheres e crianças.

    Até hoje, vira e mexe, os chineses fazem protestos públicos, reclamando umas desculpas que os japoneses, oficialmente, jamais pediram. Fazem questão de contar às novas gerações os detalhes das atrocidades que vivenciaram.


    Li Bingli, 79 anos, narra aos estudantes, histórias de resistência às tropas nipônicas

    Integrantes da força aérea atual olham fotografias da guerra de 30 anos atrás

    Soldados veteranos falam sobre sua experiência durante a guerra

    Nanking

    Durante minha infância, a única referência que eu tinha para essa palavra eram as canetas “de nanquim”. Porque eram super delicadas e custavam muito, sempre fui terminantemente proibida de tocá-las. Se converteram em um sonho de consumo, quase um símbolo de status no meu imaginário mirim.

    Cresci, estudei e entendi que Nanquim é mais que a cidade onde produziam as tais canetas. Quando ainda era a capital da China Nacionalista, foi palco de um massacre histórico. Massacre esse que acaba de virar filme e estrear nas telas de Pequim.

    O longa "Nanking" é uma produção americana em formato documentário. Ainda não vi, mas li que, co-dirigida por Bill Guttentag, a obra foi premiada com um Oscar. Segundo a imprensa internacional, as imagens mostram ruas devastadas por bombas e pilhas de cadáveres de crianças com depoimentos chorosos de testemunhas chinesas falando de estupros e torturas. Também inclui confissões de soldados japoneses que participaram na matança e leituras dramatizadas de biografias reais. "Este filme trata do que a humanidade tem de melhor e de pior", disse Guttentag durante a pré-estréia.

    02/07/2007

    Nos olhos de quem vê

    Numa exposição do Museu de Civilizações Asiáticas de Cingapura:


    "Nada é bonito ou feio em si mesmo. A beleza está nos olhos de quem vê.
    Quanto mais uma coisa (lhe) atrai, mais você gosta dela"

    Era a frase que abria uma mostra sobre a beleza na Ásia. Faz todo sentido.

    27/06/2007

    Viagem 15 cocares

    E olha que a minha milhagem no “Programa (fidelidade) de índio” é altíssima! Mas com os pontos que tô somando hoje, acho que vai dar até pra fazer uma viagem como a de Júlio Verne, ao redor do mundo, toda com bilhetes-bônus.

    Só espero que não seja com a China Airlines.

    Depois de um atraso de três (T-R-Ê-S) horas no aeroporto de Pequim (onde uma tempestade apocalíptica, de repente, deixou o céu negro, tão negro, que não se via a pista, os aviões, nada, e os chineses se acotovelavam, colados na vidraça do saguão, cada um com seu celular supersônico – aqui todo mundo tem um – pra tirar fotos daquele “fenômeno” meteorológico), fui presenteada com uma capa de chuva vermelha! Não entendi o porquê, a princípio. Mas, logo em seguida, me achei até ingênua pela lentidão no pensamento. Era pra ir andando até o avião, ora pipocas. E quem liga pro fato de estar chovendo A MARES (me veio à cabeça filme do George Clooney, "A tormenta perfeita”). Mas enfim. Estamos na China e não adianta se surpreender. É tocar o barco e seguir a corrente. Fazer o que? Reclamar no Procom? Lá fui eu, de sandália rasteira, me equilibrando pra não deixar o lap top se afogar, “protegida” do aguaceiro com a linda capa vermelha. Até simpatizei com o figuro, vou ser sincera. Se não fosse tão complicada a logística, na hora, teria tirado uma foto: Todos os passageiros caminhando no toró com capinhas plásticas. Imagem singela! E ficou ainda mais simpática porque havia diversidade nas cores. As capas, distribuídas aleatoriamente, variavam também em versões amarelas, azuis e verdes.

    Molhada até nos ossos, me acomodei na poltrona e esperei. Esperei. Esperei. Esperei... 20 minutos depois, uma voz avisa que “sentindo muitíssimo, o vôo vai atrasar”. Como assim? Não já atrasou? Estávamos 3 horas e 20 minutos fora do horário previsto!!! O chato de viajar sozinha é isso: você não tem com quem trocar uma opinião nessas horas de frustração. Ao meu lado, só uma senhora chinesa (aliás, ela está literalmente debruçada sobre o pedaço de cadeira que nos separa e acompanha fielmente cada teclada que dou aqui... Já desisti de me chocar com a falta de privacidade na China – podem dar oi pra vizinha! Tá lendo tudo em tempo real... Ao não ser que fale português, tá lendo o texto como quem aprecia uma pintura abstrata).

    50 minutos depois, finalmente decolamos.

    Nisso, uma fome do cão já tinha feito as paredes do estômago colarem, depois de tanto roncar. Meu reino uma torrada com manteiga! Mas ao invés disso, eis que surge a aeromoça sorridente, com as bandeijinhas de comida. Já estava a ponto de celebrar o fato, quando olho praquilo e tenho vontade de chorar. O “manjar” incluía um pratinho de macarrão tipo espaguete FRIO e de cor acinzentada (que não procurei saber o porquê), uma salada de sabe-se-lá-o-que e mais quatro pacotinhos macambúzios. Senti até tristeza. A senhora ao lado devorando a parte dela. Os demais passageiros chineses, idem. Peguei rápido o saquinho de snack, implorando aos céus por uma boa notícia. Sobre tudo, uma notícia salgada. Mas não fui ouvida. Era maçã frita! (tudo bem: em outro vôo, me deram jaca frita!).

    Ainda concentrei as esperanças num terceiro potinho – que, na versão ocidental, muitas vezes, seria um iogurte. Mas, como de uma viagem de índio se trata, fui brindada com nada menos que uma sopa de fungos brancos com pedacinhos de pêra!!!!!!!!!! Juro que ensaiei comer um pouco de tudo. Mas tá difícil. Resolvi escrever pra aliviar a fome. Digam tchau à moça que não sabe ler português. Minha bateria tá acabando...

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    Post posted:
    Depois do não-almoço, achei que era só me concentrar no livro do Gabriel García Marques e, em menos de 4 horas, estaríamos chegando em Cingapura. Eis que, mal acabo o primeiro capítulo e escuto o comandante avisar que, “em 20 minutos, estamos aterrizando”. No ato, me arrependi de todas as queixas e comentários cruéis aqui postados. “Se a velocidade da aviação neste país contrabalanceia todo o resto – os atrasos em terra, o medo da tempestade apocalíptica, a senhora que lê meus textos, a sopa de fungos com pêra e afins – calo minha boca”. Já comecei a arrumar meus pertences, calçar a sandália. Olhei lá pra fora e me achei até sortuda porque o dia ainda estava claro. Como a chegada tinha sido previstas pras 22h, pensei: “Nossa! Em Cingapura, escurecesse tão tarde, mesmo estando tão perto do Equador...”. Mas enfim. Calculei que já tinha visto de tudo e que nada mais me surpreenderia.

    Adivinha! Ledo e crasso engano. Claro!

    O avião estava aterrizando em nem-sei-o-nome, uma cidade do sul da China, cuja existência, até então, eu desconhecia!!!!!!!!!!!!!

    Fiquei uns dois minutos sem reação, lembrando que, na confusão do aeroporto, realmente ninguém tinha conferido os cartões de embarque. Uma vez com a capinha de chuva, só segui a multidão, sem entender o que diziam os funcionários da companhia aérea – porque só falavam mandarim. Rezei. “Senhor, por favor, faça com que eu não tenha subido num avião trocado”. Pânico. Fiquei lembrando daquela frase feita “de graça, nem ônibus errado”. Isso não podia estar acontecendo comigo.

    Olho pro lado e a senhora sem a menor cara de surpresa. Pra ela, era mais que natural aterrisar em... Não sei o nome. Os dois homens na poltrona ao lado, idem. Todos normais, sem cara de surpresa. Pensei FODEU. Já me imaginei mendigando pela cidade. Iria me tornar uma andarilha, empurrando um carrinho velho de supermercado, com meu colchão e umas latinhas de refrigerante que iria catar para juntar um trocado. Só não teria barba. Mas tava decidido: minha vida seria esta até alguém perceber que havia uma homeless estrangeira na cidade. Eu sairia nos noticiários nacionais e finalmente algum expatriado conhecido de Pequim saberia onde eu estava e iria lá me resgatar com um intérprete.

    Menos mal que, focando a vista algumas fileiras pra trás, descobri outros ocidentais que pareciam tão confusos como eu. Um senhor russo se levanta e começa a montar escândalo. Falava um inglês bem pobre, mas deu pra entender que ele queria saber por que estaríamos pousando na tal cidade. “Eu também! Eu também!”. Enquanto tentava me desvencilhar da aeromoça que não falava inglês – e insistia em me manter atada ao cinto de segurança para o pouso – berrei pro russo: “Ei! O que está acontecendo?”. Nisso, apareceu outro homem estrangeiro e explicou que, lá atrás, a galera também estava nervosa, sem saber de nada. Estresse. Os chineses só olhando aquela meia dúzia de lunáticos reunidos no meio do avião, tentando extrair da única aeromoça a bordo que falava inglês a razão daquela mudança de rota. Ela só respondia “Não sei, não sei. Vamos pousa agora, em 10 minutos. Por favor, sentem-se”. Nunca vi nada parecido.

    E não só porque estávamos a ponto de chegar num lugar que eu desconhecia, mas também porque tava achando aquilo uma torre de Babel – cada um com seu idioma – e os chineses, tão pacíficos e obedientes, sem questionar nada. Aliás, uma menina de Pequim, que arranhava inglês, se meteu na conversa pra dar a seguinte pitácora: “Tudo bem. O comandante vai resolver tudo, assim que pousarmos”.

    Ein?!?!?!?! Eu lá sabia quem era esse comandante... Enfim. Depois de todo o circo (os palhaços éramos nós, claro), pousamos. Em solo, uma mocinha segurava uma placa com o número do nosso vôo. Os chineses, todos clones, segurando as malinhas de mão, iam seguindo a líder, calados. Eu e os demais “rebeldes”, nos queixando, querendo saber quem era o comandante, criando problemas pra desembarcar. Mico.

    Lá pelas tantas, aparece outra moça, com vários cartões de embarque. Distribui um pra cada passageiro e escreve, à mão, o assento onde cada indivíduo prefere sentar-se. Um sistema mais chinês, impossível. Ainda tentei pegar uma revista da companhia aérea, onde tinha um mapa da Ásia pra perguntar a qualquer passante onde estávamos. Mas, quando o rapazinho começou a apontar pro oeste da China (lembrando: Pequim é no norte e Cingapura está ao sul), preferi não saber mais nada de geografia.

    Voltei ao plano inicial (me tornar andarilha) e desisti de reclamar. O russo já fazia isso por todos nós. Aliás, coitado. Estava a ponto de ter um ataque do coração, berrando com todos os chineses – falassem inglês ou não.

    Assim sem dar maiores explicações, nos meteram no início de uma fila longuíssima (de novo, a maioria eram chineses e ninguém reclamou. Nem soltaram um pio!). Os homenzinhos com uniforme olharam nossos passaportes e botaram uns carimbos nos cartões de embarque (carimbos na China são sinônimo de poder!). Depois, nos amontoaram numa salinha de espera. As veias do pescoço do russo saltavam. A mulher dele ficava segurando o braço do homem. Parecia um touro. Ambos vermelhíssimos, como se tivessem acabado de voltar da praia. Eu só pensando: onde vou achar um carrinho de supermercado pra começar minha nova vida nesta cidade?

    Mas, aí, abriram a portinha e demos de cara com um finger. De lá, já saímos em outro avião... E, umas 3 horas de vôo depois, desembarcamos em outro aeroporto. Quase me ajoelhei pra beijar o chão. Nunca achei que gostaria TANTO de Cingapura. Cidade fantástica!

    25/06/2007

    Vai uma Monalisa aí?

    A indústria da pirataria na China, às vezes, se mete com obras de arte também.


    Na cidade de Dafen (norte do país), os artistas são especializados em “reprodução” de quadros famosos.






    *fotos publicadas no jornal La Repubblica (Italia, 06/2007).

    20/06/2007

    Blogspot... adivinha!

    Pela enésima vez, foi bloqueado. Desde o dia 08/06, a saga continua... Posta-se, mas não se lê blog(spot) algum através de conexões chinesas.

    É uma espécie de transtorno bipolar. Percebeu? Belos dias, tudo bem. Maus dias (vai saber porquê!!! Faltou lítio na sopa), alguém pira e começa a estorvar os blogueiros, bloqueando o acesso a tudo.

    Domínios chineses
    Em tempo – e em contradição com a censura reinante – o fato é que o domínio cibernético ".cn" já é o terceiro mais popular do mundo. Entre os denominadores nacionais, só perde pra Alemanha (.de) e Reino Unido (.uk).

    Segundo as cifras do Centro Nacional de Informação em Internet da China – responsável pela regulação da rede no país E PELO BLOQUEIO DE MILHARES DE PÁGINAS (incluindo esta, do Blogspot, atualmente!!!) – os internautas chineses já ultrapassaram os 140 milhões. São a segunda maior comunidade cibernética do planeta.

    E há mais de 5,3 milhões de sites .cn – simplesmente cinco vezes mais que em dezembro de 2005.

    Pra quem se espanta de ver como tudo, nessa terra, cresce a ritmo vertiginoso, lembremos: como sempre, rola um empurrãozinho extra, vindo das autoridades chinesas. Há meses – e até 31 de dezembro deste ano –, qualquer um, interessado em adquirir um site .cn, só precisa desembolsar um módico yuan (menos de 30 centavos de real!) pra realizar o sonho do domínio próprio. E pode inclusive escolher um dos subdomínios em mandarim – idioma que já se converteu, há tempos, em um dos mais usados na internet, junto com o inglês e o japonês.

    Capici? É por tudo isso que eles costuram o que podem e não podem pra limitar as pessoas a lerem só informações que não geram inconformados e revolucionários. Haja paciência...

    (Posts de bloqueios anteriores aqui e aqui)

    13/06/2007

    Rumo a Xangai

    Dia sim, dia não, Pequim te surpreende. Aliás, os pequineses surpreendem. E a pergunta que não quer calar é: “Senhor, onde fui amarrar meu burro?”.

    Semana passada, conheci uma americana que ainda andava intrigada: “Já vivi em vários países, mas as coisas aqui em Pequim são muuuuito diferentes...”. Esclareci: “Querida, isso aqui não é outro país. É outro planeta!”.

    Mas como estou de saída pro aeroporto, essa história vai ficar em aberto. Xangai aqui vamos nozes!!!

    05/06/2007

    É chique ser rico

    Especialmente “novo rico”. Na China, quem tem dinheiro, hoje, faz questão de exibir. Prova disso são os vários modelitos que misturam xadrez com bolinhas e circulam, soberanos, pelos shopping centers de Pequim, ostentando as etiquetas. Brega. Mas, os apoderados não tão nem aí. Fazem pose de bacana e gastam aos tubos.


    Tanto, que Xangai acaba de recepcionar a (segunda) “Feira dos milionários”. Durante o fim-de-semana, o povo pôde se refestelar na abundância de produtos do naipe de celulares com diamantes incrustados (bagatelas de 3,5 milhões de dólares), relógio suíço em outro e prata (mais de dois milhões de dólares), uma mansão em Xangai (30 milhões de dólares), chás de mais de 1.000 dólares por quilo, jóias de 25 milhões, jatos privados, helicópteros, iates, alta costura, carros de prestígio, animais de pedigree, viagens paradisíacas, gastronomia de ponta, água mineral do Alasca e por aí vai.

    Cerca de 150 marcas internacionais marcaram presença com público de 14 mil pessoas, peneirado na bilheteria – onde os ingressos custavam 600 yuans por cabeça (153 reais... equivalente ao salário de uma semana dos xangaieses médios), ou 1.500 yuans (383 reais) no dia da inauguração do evento.

    É a única edição da feira na Ásia. As outras acontecem em Moscou (Rússia), Dubai (Emirados Árabes), Cannes (França) Amsterdã (Holanda), e Courtrai (Bélgica).

    Os chineses, que entraram pro circuito no ano passado, não fazem feio. Além do boom econômico e da bolha na bolsa de valores que promove o “sentido cívico” do consumismo nacional, eles querem ser – e parecer! – ricos a qualquer preço. Essa estética urbana agrada em cheio por aqui.

    Segundo David Zhong, um dos organizadores da feira dos milionários, "os chineses com dinheiro ainda estão aprendendo sobre marcas globais. Nós estamos ajudando essa gente a entender como vivem os milionários".


    "Também temos convidados bem jovens, de 18 a 22 anos. Eles fazem trabalhos part-time ou economizam durante semanas para poder provar nossos produtos", contou Jin Yiyi, uma gerente de cosméticos da Helena Rubinstein. "Elas podem ter dificuldades para comprar um creme de mais de 300 yuans (76,5 reais), mas não conseguem resistir à atração da marca".

    Enquanto isso, uma menina de 13 anos estava impressionada na frente do Jaguar. A mãe, sorridente, explicou que tinha levado a filha para “ensiná-la sobre as coisas finas da vida”. Literalmente, a senhora chinesa disse: “Isso vai ajudá-la a desenvolver um caráter elegante desde cedo”. Publicado na edição de ontem do ChinaDaily.


    Abismo social

    É notória essa compulsão chinesa por ostentar. A maioria do pessoal aqui não quer sorvete. Quer Haagen-Dazs. Não quere café. Quer Starbucks. Não quer óculos escuros. Quer o “G” gigante de Gucci. Não quer bolsa. Só Louis Vuitton. E não tô falando do mar de pirataria que abunda pelo país. Marcas como Chanel, Armani, Cartier, Mercedez vêm abrindo lojas paulatinamente (lojas de verdade, com preços também "de verdade"). Segundo estatísticas da Goldman Sachs (de 2005), a China já é o terceiro maior consumidor mundial de bens luxuosos (US$6 bilhões/ ano) e, em 2015, vai ultrapassar o Japão, passando a consumir 29% de todos os produtos de luxo comercializados no planeta. A demanda vai crescer 25% por ano, até lá.

    Como em outras capitais, são os jovens de 20-30 anos os que mais gastam. Mas aqui, o número de consumidores novos (que acabaram de começar a consumir produtos deste tipo) é muito maior: simplesmete 11 vezes mais que no Japão, por exemplo.

    Por causa do contexto histórico, até uns poucos anos, os chineses praticamente não consumiam nada que não fosse ‘made in China’. Sequer sabiam o que era “moda” mundo afora. Todos vestiam igual, tinham a mesma cor de cabelo, o mesmo penteado, o mesmo tipo de sapato, usavam ceroula... Hoje, depois das reformas econômicas e da entrada da gringolândia em território nacional, eles estão ficando tão fashion victims quanto os vizinhos nipônicos, os ricos de NY, Londres, Paris, etc.

    Segundo os cálculos de Yang Qingshan, secretário geral da China Brand Association, “13% dos chineses já consomem marcas de luxo". Descontando certo exagero (e excesso de otimismo) que os chineses têm por excelência - e parece que Seu Yang não foge à regra -, os cálculos dele representariam nada menos que cerca de 169 milhões de pessoas. Quase a população inteira do Brasil! "E é uma cifra está crescendo rapidamente”, recorda Yang. Ah, disto, não duvido mesmo.

    Sociedade harmônica

    Preocupado com as tensões sociais que causam as grandes diferenças entre ricos e pobres, o governo chinês tem procurado criar políticas que reduzem as desigualdades. Como, por exemplo, mais taxas de importação sobre produtos de alto standart: cosméticos, jóias, roupas de marca, carros caros, artigos de golf e afins. Em paralelo, também foram banidos todos (sim, todos!) os anúncios em outdoor que faziam propaganda de coisas caras (apartamentos de luxo, roupas de marca, perfume, relógios, tudo). Pequim anda “pelada”, cheia de espaços prateados (onde antes, colavam os cartazes publicitários).

    Quem acompanha as notícias do lado de cá certamente já ouviu o slogan “sociedade harmônica”, que o Partido Comunista emprega em todos os discursos sobre temas sociais. Em linhas gerais, é uma filosofia (baseada na teoria dos antigos pensadores chineses – como Confúcio) que prega a igualdade entre todos, mesmo quando a sociedade avança economicamente... E gera magnatas instantâneos e pobres com menos de dólar por dia. Aliás, um tema que dá muito pano pra manga. Fica pro próximo post!

    04/06/2007

    Peitões artísticos

    Shu Yong (舒勇) é o autor de umas esculturas peculiares: peitos gigantescos.

    Segundo ele, são críticas à febre do bisturi na China (como bem se sabe, aqui existe até um “concurso de Miss Cirurgia Plástica”).

    A última exposição de Yong, intitulada “Quão grande gostaríamos que nosso peito fosse?”, foi destaque no Festival Anual de Arte Contemporânea de Pequim. A obra principal, uma boneca do tamanho de uma Barbie, com um par de peitos descomunais, incomodou muita gente. Por serem titânicos (os peitos, de 1,8 metros de diâmetro), tiveram que ficar expostos do lado de fora do recinto, e uns vândalos destruíram um dos seios. Depois de reconstruí-lo, Yong teve que COLOCAR UM SUTIÃ na peça pra se retratar com os ofendidos.




    Mais sobre as "peitoesculturas" em Danwei, Designerplanet e no blog do artista (só em chinês)

    Eles foram notícia II

    Não resisti ao panorama mediático II. É, no mínimo, "eclético".

    Encontro de crianças gêmeas. Centenas de pares chinesinhos idênticos posaram pra foto em Taiyuan, província de Shanxi. Lembremos: irmãos nessa idade é coisa rara aqui na China (por causa da política de filho único). Descontando raras exceções, para estar dentro da lei, só mesmo gêmeos. (02/06/07, China News)

    O chapéu-sombrinha faz sucesso. De acordo com o noticiário de Dalian – província de Liaoning, nordeste da China – o calor do verão que está chegando vai popularizar o novo acessório entre os turistas chineses. So-cor-ro!!! (02/06/07, China News)

    Quem não tem cão caça com gato. Em Hong Kong, por falta de espaço (e sobra de poder aquisitivo), inauguraram uma sofisticada escola de equitação sem cavalos. Bom, pelo menos, sem cavalos reais. O que não faltam são máquinas. Simula-se de galope até a sensação de saltar obstáculos. Com vídeo e ambiente de cocheiras. (01/06/07, China News)

    Muita gente viu: A China lançou o satélite "SinoSat-3" – para comunicações de rádio e TV. (01/06/07, Xinhua)

    Gestos de policiais de trânsito se convertem em exercícios físicos para crianças. A partir de agora, estes estudantes de Linyi – província de Shandong, norte da China – serão obrigados a repetir os movimentos diariamente no pátio da escola. Pra ficar “em forma”. (30/05/07, China News)

    Meninas de um jardim de infância executam o (laborioso) ritual do chá. Foi uma das atividades que os professores desta escola de Puyang – província de Henan, no centro da China – inventaram para essa (peculiar) comemoração do dia das crianças. "É uma boa oportunidade para iniciar os alunos nas tradições culturais chinesas", disse um dos mestres. (29/05/07, China News)

    Casamento grupal num “romântico” balão de ar quente: 25 casais participaram da cerimônia coletiva, no ar, em Shaoxing, província de Zhejiang. (26/05/07, China News)

    Outra de casamento: Estes noivos resolveram adotar uma tradição matrimonial (não-chinesa) de soltar borboletas durante a cerimônia de casamento. A idéia era criar uma atmosfera romântica, trazer sorte e amor à nova união – ¿como no? – ganhar um espacinho na mídia local. Conseguiram. Em Shenyang, província de Liaoning, nordeste da China. (02/06/07, China News)

    Banda de cadeira de rodas emociona a audiência. É o primeiro conjunto musical da China composto só por portadores de deficiências físicas. Se apresentou na sala de concertos da Cidade Proibida, aqui em Pequim, durante o ‘17° Dia Nacional de Ajuda aos Deficientes’. Arrancaram “fervorosos aplausos” da platéia. (20/05/07, China News)

    Li Hongyun é bordadeira, uma artista folclórica da cidade de Puyang, província de Henan. Ela bordou nada menos que 128 dragões, que serão enviados aqui pra Pequim, como presente de “boa sorte” para as olimpíadas de 2008. (16/05/07, China News)

    01/06/2007

    Eles foram notícia

    Repare nas particularidades de cada um:

    Menina-bambolê: Shi Hongyan se enaltece por poder girar até 100 aros ao mesmo tempo. Quarta-feira passada, ela foi uma das atrações de um festival de cultura e turismo na cidade de Yinan – província de Shandong, leste da China. (30/05/07, notícia da agência Xinhua)

    Este não corta as unhas do mindinho, indicador e dedão há cinco anos. Já ostenta as (eca!) medidas de 12 cm, 5 cm e 8 cm, respectivamente. O “artista” chama-se Wan Xiaowen. Tem 32 anos e mora em Xinjiang, na província de Jiangxi, leste da China. (28/05/07, notícia do Jiangnan City Daily ("Hong Qiaojun"))

    O pequeno Cao Lei ganhou o respeito dos professores e alunos na escola onde estuda. Depois de perder os dois braços num choque elétrico, ele passou a fazer as anotações com os pés. Em Huoshan, na província de Anhui, leste da China. (29/05/07, notícia da agência Xinhua)

    Li Zhiyuan fabricou uma bicicleta flutuante, usando materiais recicláveis, madeira e pneus velhos. Foi aí no rio do Parque de Hefei – na província de Anhui, leste da China –, que ele apresentou a obra ao público. Não só funciona, como custou menos de 150 yuans (uns 37 reais) e levou menos de um mês para ficar pronta. (28/05/07, notícia da Reuters)

    Imagem de um trabalhador limpando os vidros de um prédio aqui em Pequim. (27/05/07 Qinbin/The Beijing Times) ¡¡¡Peculiar porque lembrei do meu episódio particular!!!

    Uma fazendeira, criadora de suínos, mostra, orgulhosa, um porquinho-aberração que nasceu com uma cabeça, duas focinhos e três olhos. Em Xi'an, província de Shaanxi, nordeste da China. (06/03/07, da newsphoto)

    30/05/2007

    Privacidade?

    Esse conceito só existe pra quem cresceu fora da China. Aqui, reina a convivência coletiva, agrupada, com poucas barreiras entre o "meu", o "seu", o "nosso". Talvez tenha algo que ver com os fatos históricos, a revolução cultural chinesa, a não-propriedade privada, os 1,3 bilhões de cidadãos... Só sei que é humanamente impossível explicar à massa local o porquê de querer manter um espaço vital nos moldes do ocidente.


    Sempre que aparece um chinês desconhecido em casa, ele(a) entra, mexe em tudo, como se tivesse no próprio lar. Outro dia, um rapazinho, que veio entregar umas flores, não satisfeito com a posição de umas revistas jogadas em cima da mesa, foi lá. Empilhou tudo, ajeitou os quatro ângulos do montinho com as mãos e colocou um porta-retrato em cima. Ainda olhou pra mim, em seguida, e fez um “positivo” com o dedão, rindo, todo contente. Sem um dente da frente.

    Aliás, já na minha primeiríssima semana de habitante em Pequim, fui brindada com uma “passagem bíblica”: Tinha marcado de estar em casa às 2:00PM para receber um “design” (superlativo otimista de ‘carpinteiro’) que viria tirar as medidas do quarto para fazer um armário. Me atrasei. Às 2:20PM, quando abro a porta DA MINHA RESIDÊNCIA, dou de cara com dois senhores chineses, completamente ambientados dentro DO MEU APARTAMENTO. Só faltaram dizer “entra, querida, fica à vontade que a casa é sua”. Ainda saí e olhei novamente o número na porta. “Sim, é o meu”. Enquanto eu tentava perguntar – em inglês, em vão – que diabos aqueles dois estavam fazendo ali, o chinês-chefe começou a gesticular e falar sem parar (Aqui, a moda é falar alto, berrar, se preciso for... E dizer a m-e-s-m-a frase umas 4, 5 vezes – como, se com a repetição, o estrangeiro passasse a entender mandarim). Vendo que o sujeito era incansável, lancei mão do clássico “uóóóó... diiing buuu... dong” (a frase do milhão: “escuto, mas não entendo (o que você tá dizendo)”). Pra ser mais clara, fiz também sinal de STOP e liguei pro lobby. Pedi ao porteiro, que falava um inglês rústico, pra subir e dar uma força.

    Quando surge o porteiro, serelepe e faceiro, começa a fazer sua particular “tradução” (ao estilo do filme 'Lost In Translation': a conversa entre asiáticos é longuérrima. A tradução pro ocidental vem em forma de três - quando muito, quatro - palavras. E você finge que acredita, porque, senão... vai onde? Ao Procom?). Peço ao caro porteiro pra perguntar aos bons senhores chineses desconhecidos como eles dois entraram na minha casa... E pra resumir a ópera, o que aconteceu foi que - depois de muito aparentar que não me incomodava fazer cara de paisagem, enquanto assistia àquela particular discussão entre eles -, eu soube que um deles (o que tinha pinta de chefe) trabalha no Management Office do condomínio e tinha uma cópia da chave porque, até então, ele tinha sido incubido de mostrar o local aos potenciais inquilinos - apesar de que o aluguel daquele apartamento já estava sendo pago havia DOIS meses. Pra averiguar os fatos, o homem ainda me sugeriu que eu ligasse pro proprietário (que vem a ser um sueco, alheio a tudo isso, lá na Europa). Bom, “vamos encurtar isso, moço”. E esclareço: “Quero a chave de volta”. “Agora!” A contragosto, o porteiro traduziu meu 'gentil' pedido. E o homenzinho, ainda mais contrariado, relutou, relutou, mas acabou devolvendo a chave. Pra ficar tranquilo, me fez escrever um “recibo” num pedacinho de papel amassado, prontamente sacado do bolso: “I received the key of the apartment, signed: Juliana Vale”. Lembrando: era a chave DO MEU PRÓPRIO LAR (onde eu tinha passado as duas anteriores noites e por onde se viam espalhados todos meus pertences).

    Mais tarde, nesse exato mesmo dia (foi um dia longo!) e ainda com a presença do porteiro-intérprete em casa, se apresenta o designer que, tinha vindo tirar as medidas do armário e vai – sozinho, sem maiores cerimônias –, pro meu quarto, fazer o trabalho dele. (Ah! Nisso tudo, você poderia se perguntar: “então, quem era o segundo chinês invasor, que acompanhava o dublê de corretor imobiliário?”. Pois é. Não sei, nem saberei jamais. Era um passante, um amigo, um parente, o namorado, sei lá. Estava por alí, se distraindo...). Ainda estava eu, me decidindo sobre pedir aos chineses-intrusos-sem-papel-definido para irem embora, dispensar o porteiro ou seguir o designer, quando me aparecem três (novos) chineses, todos uniformizados, que nem clones, para entregar uma mesa que tinha sido comprada na véspera. Antes que eu tivesse a chance de dizer “pode entrar”, o porteiro já se incorporou no papel de dono da casa e leva os três paus-mandados até o quarto. Não sem antes, parar ao lado de um das várias caixas de mudança que entulhavam o corredor e puxar alguns livros de dentro de uma dela (“Uau! Você lê muito!”). Na seqüência, se senta comodamente numa cadeira giratória e, enquanto rodopia alegremente, testando a qualidade do assento, atende o celular e começa, simultaneamente, a dar ordens aos homenzinhos uniformizados. O designer no quarto, sozinho. O chinês sem-papel-definido, irado, ao lado do porteiro, também dando ordens... A porta abre-se de novo (campainha pra que? Não tava trancada a chave... O pessoal não se faz de rogado). E era um técnico com seus quatro (sim, quatro) subordinados, que tinham vindo instalar a lava-louça. Primeiro, berraram comigo em chinês. Depois, me ignoraram e passaram a tratar com um dos entregadores da mesa – que, àquela altura, era outro íntimo do ambiente. Adentraram a cozinha e ainda chamaram, pelo interfone, mais dois engenheiros, que chegaram logo depois.

    Perdi o controle da situação (se é que tive isso, em algum momento, depois das 2:20PM). Enquanto contabilizava 12 pessoas – completamente à vontade dentro da MINHA CASA –, me dei conta de que quem menos autoridade tinha ali era eu (pudera: só com o porteiro eu era capaz de me comunicar - e, mesmo assim, com frases curtas, sem artigo ou plural). Foi incontrolável. Virei as costas pra aquele falatório, entrei (sozinha!) no MEU banheiro e comecei a rir. Rir. Rir. Rir. Foi compulsivo. Olhava pro espelho e ria ainda mais. Sentei no chão e apertei a barriga com as duas mãos. Ria. Tive um acesso de riso irreprimível, involuntário. Não sabia se aquilo era real (os 12 homens ao meu redor, todos gritando, eu não captando porra nenhuma, o porteiro na cadeira, o funcionário da loja fazendo as honras da casa, aqueles dois com a chave do apt, o designer sozinho, perdido em outro canto...), ou eu tava sonhando. Sem internet, TV (aliás, nem cama tinha em casa ainda, naquela época), peguei o celular e disquei pro cúmplice. Antes de eu conseguir dizer alguma coisa, ele pergunta, preocupado: “Ju, você tá chorando? O que houve? Fala, Ju! Fala! Aconteceu alguma coisa?”. Não, era só eu, vivendo no meu reality show privado. Não conseguia parar de rir. Tinha até lágrimas – e aqueles roncos espontâneos que a gente dá quando ri demais. Parecia sob efeito de algum entorpecente. Finalmente, respireu fundo e consegui soltar: “Eu...tô...num freak show”.

    E não sou a única

    Uma amiga espanhola, que também mora aqui em Pequim há alguns meses, ligou pra contar que a professora de chinês (uma senhora na casa dos 50, curiosa e tosca como uma personagem em estado bruto) inventou de fazer uma visita durante o feriado. Minha amiga pensava que era pra se encontrarem e, dali, irem juntas a um mercado onde vendem jóias - porque a amiga é gemóloga e a professora, em outra ocasião, tinha dito que queria a ajuda dela pra comprar uns anéis. Mas não. A professora chinesa aparece na casa da amiga espanhola com três parentes (uma sobrinha, uma prima e o marido da prima!!!), mais uma filmadora – já ligada. Amiga abre a porta e dá de cara com aquilo. Os quatro eufóricos, falantes, adentraram com flores, bombons e duas garrafas de vinho. Não deram nem tempo pra amiga pensar em reagir. Já estavam filmando. Foram cômodo por cômodo. Até abriram as portas dos armários pra registrar dentro! E, depois de também tirar mil fotos e analisar detalhadamente cada objeto da casa – sempre exclamando “Que lindo! Que lindo!” –, se sentaram no sofá, com caras de estudantes comportados. A espanhola disse que ficou lá – meio desbundada, meio chocada – naquela situação de tentar puxar assunto com quatro estranhos que só mexiam a cabeça, concordando. Ou repetindo que o apartamento era lindo. Aí, ela pergunta: “Então? Aonde vamos?”. E eles: “Não, não. Não queremos molestar... Outro dia, quando você tiver tempo”. E tudo isso na base do inglês precário – através dos parentes da professora, que minha amiga nunca tinha visto mais gordos na vida. Antes que ela conseguisse descobrir “mas, então, vocês vieram só pra filmar minha casa?”, o povo se levanta, recolhe os pertences e vai embora. Assim como chegaram, sumiram. Opinei: “Amiga, ou era uma pegadinha e você tava aparecendo ao vivo na TV estatal, ou sua vida, agora mesmo, virou atração no bairro da professora: "Geeeente, olha só a linda casa da minha aluna rica!”.

    29/05/2007

    VIPs sequestrados

    Da séria ‘só aqui na China’. Quem anda atualizado sobre Pequim sabe que está na moda o restaurante/bar/lounge Lan, do cultuado designer francês Philip Starck. Descrição rápida: Bem nouveau rich, o local ostenta 6.000 metros quadrados de uma decoração “peculiar”, que vai de pinturas a óleo a uma cabeça de rinoceronte, passando por móveis barrocos, luminárias Baccara e cadeiras de 25.000 dólares (cada) feitas por 10 artesãos (cada) durante um mês (cada). Como clientela, pessoas que se consideram a fina flor do jet set local.

    Pensando em ver como essa fauna se comporta ao vivo, resolvemos celebrar o aniversário de um amigo italiano – de passagem pela China – lá. Era um jantar. Reservamos a mesa com uma semana de antecedência. E, no dia marcado (sábado), comparecemos.


    Já na chegada, a coisa começou a parecer estranha. Antes d’eu encontrar o porque de um homem uniformizado ter vindo correndo abrir a porta do carro, já estava pisamos num looooongo e chamativo tapete vermelho, onde uma fila de mocinhas vestidas em traje de gala, dava “boa noite” (em inglês!) pra gente. Enquanto a horda de fotógrafos ia iluminando nosso caminho com flashes (foram definitivamente nossos 15 segundos de vida hollywoodiana), o aniversariante pergunta: “Vocês montaram essa sacanagem de propósito?”.

    Na verdade, não. “É que hoje estamos tendo uma festa privada da Mercedes-Benz e da Grey Goose”, explica o rapaz da recepção, depois de se desculpar por não ter conseguido nos localizar pra antecipar a notícia (o telefone da reserva era o meu celular – que costuma ser ignorado durante o fim-de-semana). Feliz, ele avisa ainda que, como compensação, nos fez um “upgrade”. Ao invés do restaurante – onde o serviço a la carte tinha sido suspendido por causa do coquetel –, fomos destinados a uma sala vip reservada. Caras de bunda.

    Se fôssemos chineses, estaríamos provavelmente radiantes com a notícia (porque, aqui na China, é chiquérrimo isso de comer em áreas reservadas). Mas, prontos pra ter uma experiência antropológica em meio aos novos ricos chineses, aquilo soou mais como um balde de água fria. Só não amargamos a decepção porque a fome era maior.

    Sim. A sala onde nos colocaram era impressionante (especificamente uma dessas aí acima, na foto). No centro, uma mesa redonda, ao estilo medieval, com uns 2 metros de diâmetro. Ao redor, cadeiras – cada uma de um estilo diferente – todas com estofados de veludo e encosto alto. Coisa de monarca. As paredes, com cortinas e obras de arte. Uma espécie de pot-pourri de objetos de brechó – só que limpos, novos e com a assinatura Starck.

    A comida? Medíocre. E o serviço, curioso. Menos mal que o vinho fez efeito. Passamos umas duas horas dentro daquela sala e sempre havia um chinês – com um sorriso estampado na cara (parecia que tinha levado um choque) – parado, como um dois de paus, esperando pelo seguinte comando. Você mal apoiava o copo na mesa, e eis que lá estava a mão do sujeito, esperando pra repor a bebida. Ele não entendia muito do que se dizia lá dentro. A frase-chave do rapaz era “sorry, my English...” (sim, com reticências no final). Devia estar achando uma aberração: quatro idiotas que se dobravam de rir com coisas que, para ele, pareciam absolutamente triviais. Pedimos pão (que precisou ser explicado com mímica, paciência, e várias repetições de leitura labial). Entender? Sim, ele entendeu. A palavra. Porque o conceito passou longe. O pão, que deveria ter vindo junto, ou antes da comida, com óleo e sal, sei lá, chegou no final de tudo. E era pão de forma (!!!!). Branco. Cortado em triangulos. Acompanhado de manteiga e marmelada. E apresentado como... sobremesa?!


    Nem sei. Depois de ter visto as luzes irem diminuindo, diminuindo, até quase apagarem, no meio do jantar (situação prontamente seguida da aparição instantânea de outro chinês com sorriso estático que repetia "sorry, sorry") e ter comido com a sensação de estar participando de um reality show, já não fazia a menor diferença.


    Rimos muito de tudo aquilo, ok. Mas, finalizado o festim, queríamos ver gente!!! Quando já estamos saindo da salinha 5 estrelas – nós, as mulheres, munidas de bolsa e batom –, eis que o chinês do sorriso estático nos freia e começa a indicar o caminho de volta. “Não, moço, eu quero sair”. Não podia. E o homenzinho, muito orgulhoso, nos mostra que dentro da ‘super sala’, a cortina escondia mais que obras de arte. Tinha um banheiro privativo! Desnecessário comentar o patético da situação. Ninguém estava, de fato, interessado em banheiro algum (mesmo que aquele – ¿como no? – fosse um autêntico toilete Philip Starck, cheeeeio de enfeites, uma privada refinadíssima, toalhinhas afrescalhadas, espelhos ao estilo Branca de Neves e o escambau). Entre tentar conter o acesso de riso (convenhamos: era tudo muito esdrúxulo pra um mero jantar) e não querer ferir os sentimentos do nosso garçom-anfitrião chinês, dissimulamos, conferindo o novo cômodo. Um dos presentes ainda emenda: "E se a gente subornasse esse cara pra ele nos deixar usar o banheiro de serviço? No caminho, a gente gastava o outfit, né?!".

    Enquanto isso, o chinês, na posição onde estava, não via o que fazíamos lá dentro. Só escutava as risadas. Devia estar pensando: "Esses ocidentais são bem estranhos mesmo. Até vão juntos ao banheiro!".


    No fim das contas, sim, conseguimos nos livrar do nosso cativeiro de luxo e nos juntar aos “mortais”. Mas não deu pra ver nada. Já era tarde e tínhamos que estar em outro bar, logo depois.

    Pois é. Continuo sem saber como se comporta a fauna local. Por ora, só consegui dar a eles a oportunidade de ver quatro estrangeiros bancando os trapalhões.

    27/05/2007

    A versão fêmea de Mao

    “Cara de um, focinho do outro”. Chen Yan, uma mulher de 51 anos é (com orgulho) a primeira sósia mulher de Mao Mao Tse-tung.

    Incentivada por uma amiga cabeleireira, a senhora chinesa se transveste de Mao para treinar os dotes artísticos.


    A produção sai cara. Embora tenha feições bem parecidas, ela precisa encarar uma sessão de maquiagem que custa nada menos que 2.000 yuans (uns 510 reais) por vez. E ainda mete uns incômodos sapatos – especiais, feitos à mão – com uma sola de 30 centímetros pra deixar Dona Chen mais parecida ao defunto soberano.


    Ela também não era adepta da nicotina, mas aprendeu a fumar pra encarnar melhor o personagem - que vivia com um cigarrinho em punho.

    O resultado, entretanto, é notável, ein?!?!


    E você, que não mora aqui, deve estar se perguntando "Mas qual o porquê de tudo isso???" Ora, pipocas. Chineses a-do-ram quebrar recordes, ou serem reconhecidos por alguma façanha original.

    No caso da senhora Chen, além de conquistar aqueles tais 15 minutos de glória (neste fim-de-semana, por exemplo, ela desfilou pela cidade de Mianyang, na província de Sichuan, tirando fotos com a multidão e saiu em vários jornais, inclusive no exterior), Chen pretende ser contratada por algum veículo de comunicação para interpretar Mao profissionalmente.


    Detalhe: A China tem regras estritas para qualquer pessoa poder interpretar líderes políticos (vivos ou mortos). É preciso ter a aprovação da administração nacional de Rádio, Filme e TV e o consentimento dos parentes do líder em questão. A Chen tá na fila, claro.

    fotos: Reuters

    19/05/2007

    Cadê?

    Estou sentindo falta de ler um certo blogspot que não tem sido atualizado... Desde março!

    17/05/2007

    Preto 18, senhor crupiê!


    Apostar é um esporte nacional na China. (Pudera. Com tantas superstições...) Mas é preciso saber quando, onde e – sobre tudo – como fazer sua fezinha. Os chineses acreditam que o mais mínimo detalhe pode alterar todas as circunstâncias. Por exemplo, nunca, jamais, sob hipótese alguma, faça apostas depois de cortar o cabelo, tomar banho, ter visto um macaco ou uma freira. Por quê? Não sei. Mas reza a lenda que tudo isso é desfavorável à sua sorte, colega. Se você tiver doente, idem: azar, azar, muito azar. Evite arriscar seus trocados durante esse período. Também está vetado falar sobre temas literários porque a palavra “livro”, em cantonês, soa “shu”, como o verbo “perder”. Outro mau sinal é contar o dinheiro enquanto ainda se está apostando. Não pode.

    Pra atrair a sorte, os chineses têm métodos pouco ortodoxos como usar cueca ou calcinha vermelha (um campeão de preferência – percebeu?), trocar todas as luzes de casa antes de sair (peculiar, peculiar) e, se for mulher, esperar o período da menstruação (sem comentários). Quem aposta em cassinos é ainda mais meticuloso. Entre outras coisas, não entra pela porta da frente e só se hospeda em quartos com números favoráveis à fortuna - como 8, 18, 13, 168, 198 ou 798. Ah! Uma dica hilária: Se você tiver perdendo, pare o jogo e vá ao banheiro. Pra quê? Pra dar uma “aliviadinha” (leia-se fazer cocô) e, assim, “mandar embora o azar descarga abaixo”.

    Místicos até debaixo d’água, os chineses também estão convencidos de que os números vencedores estão presentes no nosso cotidiano. Só precisamos saber interpretá-los. Por isso, adoram jogar em combinações como a placa do carro, a data do aniversário, a seqüência do telefone e por aí vai.

    16/05/2007

    "No creo en brujas, pero..."

    Chineses são obcecados com superstições. Há umas engraçadas e várias, non-sense.

    Números
    Aqui, cada algarismo tem seu significado. Alguns são considerados positivos e atraem sorte. Outros, negativos, acarretam desgraças. O quatro – escrito 四 e pronunciado “” – é fatídico, porque soa como “morte” (死, “”). Rejeitado. Prova disso são os números de telefone com 4 bem mais baratos que os demais. Ou maioria dos prédios, que não tem determinados andares: 4°, 14°, 24°. Já o oito (八), pronunciado “”, é o campeão da preferência nacional. Rima com (“”, 发), que significa “ficar rico”. Na província de Guangzhou, no sul do país, celulares terminados com 8 são disputados a tapa. Podem chegar a custar até 5,000 yuans (uns 1.300 reais) a mais! O seis (六, “liù”) também é querido porque lembra (“”, 禄), que significa, a grandes rasgos, algo como “desfrutar da vida com dinheiro e alegria”. O nove (九, “jiǔ”), idem. Além de homônimo de 久 (“jiu”, perpétuo) – e, portanto, cifra da eternidade – é o número mais alto. Encarna supremacia. A arquitetura dos palácios antigos tinha sempre estruturas de nove – ou múltiplos de nove – pra ressaltar essa tal posição soberana dos reis e imperadores.

    Cores
    Cores igualmente ostentam personalidades próprias. Branco é a cor da morte. Amarelo, do paraíso – assim como a cor da roupa do imperador (filho do paraíso) e dos tetos dos templos. Vermelho, hours concours, significa sorte e prosperidade. Além de preencher a bandeira nacional, colore calcinhas e cuecas no dia de ano novo chinês. Os mais supersticiosos, aliás, se estocam de underwear vermelha pra passar o ano (inteiro) deles (ano do zodíaco chinês, digo), vestindo a cor favorita - dia após dia! Noivas chinesas tradicionais também se casam de vestido vermelho (embora já haja muitas que, globalizadas, preferem adotar o look ocidental, todo em branco).

    Casamento
    O tema 'altar' é pleno de crenças. Em determinadas províncias do interior, companheiros 3 ou 6 anos mais novo, assim como 3 ou 6 anos mais velho que a cara metade não podem selar o matrimônio. Dá azar. Ao mesmo tempo, aqui em Pequim, acredita-se no contrário: a combinação noiva-três-anos-mais-velha-que-noivo é muito boa; traz dinheiro para o casal. Antes de passar pelo vicário, os casais também se asseguram de que um menino (qualquer um: o sobrinho, o filho da vizinha, o neto da empregada) sente-se no leito matrimonial (os mais exagerados até fazem o garoto dormir uma noite lá, sozinho) pra garantir que trarão ao mundo um rebento macho (uma predileção absoluta na China, como bem se sabe mundo afora).

    Gravidez
    Outra “estratégia” adotada pelas mães chinesas para gerar meninos é comer tofu, cogumelo, cenoura e alface. Para ter meninas, picles, carne e peixe. E, ah!, uma vez grávidas, elas não podem uma série de coisas, como martelar pregos – que causaria deformações no feto –, usar colas ou materiais adesivos – propiciaria um parto difícil –; falar palavrão – amaldiçoaria o bebê –; ou andar descalça (não sei por que, sinceramente). Quando dão à luz, não recebem visitas de estranhos durante os primeiros meses. (fato verídico: uma conhecida, estrangeira, acabava de voltar do hospital e precisou de uma ajuda extra pra poder tomar água. O entregador do mercado se recusava a pôr os pés na casa porque sabia que ela acabava de ter um filho). E, ah!, o aspecto físico dos recém-nascidos também diria muito sobre a personalidade deles: “Cabeludos serão desobedientes”. “De orelhas grandes e grossas, viverão uma existência próspera”.

    Nascimento
    Um detalhe crucial sobre rebentos é quando pari-los. Podendo escolher (e os chineses, de fato, escolhem!) programa-se a data para um ano favorável. Este ano – do porco dourado – é uma maravilha. Combina um animal ok e um elemento ideal, o ouro. O ano do dragão, idem. É sempre um bom ano: as taxas de natalidade costumam duplicar nesse período. Já anos de ovelha e tigre são menos populares. Ovelha porque costuma ser associada à submissão, fragilidade. E tigre porque é considerado um animal violento, que caracterizaria pessoas de personalidade difícil. A exceção – machista como manda a tradição local – é feita no caso dos meninos-tigre. Se machos, ok. Agressivos, mas “valentes”, “enérgicos”, “viris”. Agora: meninas-tigre.... Ui, ui, ui... Uma maldição em família. Na China, o ideal feminino ainda é uma mocinha recatada, obediente e bonitinha.

    Nomes
    Coisa, aliás, que se vê muito pelos nomes chineses. A alcunha do povo aqui quer dizer bem mais que um mero chamativo. Cada nome leva impressa a expectativa dos pais em relação aos seus herdeiros. Entre os masculinos, por exemplo, abundam adjetivos varonis como 勇 "Yǒng" (corajoso), 亮 "Liàng" (brilhante), ou substantivos pesados do naipe de 军 "Jūn" (exército). No campo feminino, imperam as amenidades: 丽 "Lì" (bonita), 欣 "Xīn" (alegre) ou 悦 "Yuè" (também alegre, feliz). Fico imaginando o trauma que isso deve gerar quando a criança cresce e não é exatamente tão “lì”, ou tão “liàng” como se esperava...

    Aniversário
    No dia de soprar velinhas, além do ritual cantado em chinês (“Zhu ni sheng ri kuai le...”), os chineses fazem questão de que você coma cháng shòu miàn (o “macarrão da longevidade”: 长寿面) – que pode, na verdade, ser qualquer macarrão ao estilo noodles, contanto que seja longo. Quanto mais comprido, melhor. Sabe o nosso tradicional desejo de “muitos anos de vida” ao aniversariante? Aqui, eles desejam o mesmo de uma maneira mais criativa: “Que sua vida seja tão extensa como esse macarrão!”. Pra não fazer feio, em tempo: é mal-educado abrir o presente assim que recebe ("porque, se você não gostar, não precisa dissimular" - a honestidade da minha professora!). Não se deve embrulhar o presente em papel branco (a cor da morte, lembra?). Nem é recomendável presentear as pessoas com relógios ("porque remete ao fim"). E, em família, também rola um carinhoso ovo cozido no café da manhã. Presente que os aniversariantes, hoje em dia, podem não apreciar tanto, mas surgiu em épocas passadas, quando o país sofria a fome.

    Ano novo chinês
    Tão importante como a celebração do dia do aniversário do sujeito é o início do ano dele no zodíaco. A virada do “ano novo chinês” (que oscila entre 20 de janeiro e 18 de fevereiro, de acordo com o primeiro dia de primavera no calendário lunar) é a data recorde em questões supersticiosas. Não há ocasião mais cheia de recomendações e proibições. Exemplos: não varrer o chão no dia de ano novo chinês - isso varreria sua sorte pelo ano todo; não cortar o cabelo durante o primeiro mês - morreria o tio materno (coitado do barbeiro!); não dar bronca ou castigar as crianças - porque, se elas começam o ano chorando, chorarão o ano todo. Na lista do “deve”, comer um peixe inteiro - porque a palavra “peixe” (鱼, pronunciada “”, da mesma maneira que “extra” (余)) simboliza fartura... aliás, repare: muitas pinturas chinesas têm peixes como destaque. É o típico quadro – cafona – que eles fazem questão de pendurar na parede da sala. Outra regra é espalhar o símbolo 福 (“”) – felicidade – pela casa. Sempre em pedacinhos de papel vermelho. E sempre de cabeça pra baixo, porque o mesmo símbolo, invertido, significa “chegar”. E, na lógica chinesa, 1 + 1 = 2 e “” de ponta cabeça quer dizer “a felicidade chegou”!

    Pout pourri
    de pirações chinesas
    Estranhas, mas habituais por aqui, também são as manias de deixar sempre um restinho de comida no prato “pra ter o que comer no futuro”; bater na porta do quarto de hotel (vazio!) "pra demonstrar respeito pelos espíritos que habitam o local"; dar descarga assim que fizer o check in "pra mandar embora as más influências"; andar sempre com uma pedrinha de jade - aquela verde, preciosidade em abundância na China. Custa caro, mas todo mundo que se preza por aqui ostenta um bracelete, um brinquinho, um pendente no cordão, qualquer coisa com jade. Acredita-se que jade traz fortuna e espanta os maus espíritos. E mais: a cor da jade pode variar com o tempo. Claaaaaaaro que os chineses têm uma interpretação para cara ocorrência: Se a sua escurecer, você ficará rico. Se clarear, ficará pobre. (percebeu a obsessão com dinheiro?!)

    No ramo ‘decoração do lar’, nem vou entrar. Basta lembrar que o feng shui foi criado pelos chineses e é levado muito a sério por aqui.

    E as coisas que você não pode fazer nem em sonhos? Depois de um enterro, voltar diretamente pra casa. "A alma do morto pode te perseguir". Durante a refeição, espetar os pauzinhos na comida. "Isso recorda os incensos acesos aos mortos". Apoiar a chaleira na mesa com o bico apontado pra alguém. "Faz entender que você tá desejando a morte dela". Cortar as unhas à noite. Atrairia fantasmas (por que será? Fantasma chinês gosta de chulé?). Deixar as meias ou os sapatos ao lado da cama, durante a noite. Ajudaria aos maus espíritos a te encontrarem. Usar calcinhas ou cuecas com seu nome. Pela mesma razão: "os fantasmas já saberiam como te chamar" (só ficou a dúvida: Eles lêem em qualquer idioma? E quando vêem “Calvin Klein” na cueca? Se confundem?). Presentear o(a) namorado(a) com sapatos. "Eles (os sapatos) poderiam ser usados pelo ser amado para fugirem de você" ( cruel!). Usar bigode. "Dá azar". De fato. Responda rápido: Quantos chineses você já viu de bigode por aí?

    14/05/2007

    Churrasquinho de Mao Tsé-tung

    O mundo inteiro viu... Menos quem só lê os jornais chineses. A imprensa daqui não deu, mas o fato é que sábado um chinês atirou um coquetel Molotov contra O retrato de Mao Tsé-tung, na Praça Tiananmen (ou "Praça da Paz Celestial"), em frente à Cidade Proibida.

    Pra traçar um paralelo, esse "pequeno" vandalismo, na China, é mais ou menos tão grave como seria, aí no ocidente, o de cuspir na cruz do Vaticano, em Roma. Ou pichar a estátua da liberdade, em Manhattan, NY. Capici?

    As agências de notícia estrangeiras imediatamente deram a notícia, citando testemunhas oculares, chamas enormes no retrato de Mao (uns 3 X 6 metros) e guardas (há centenas deles patrulhando Tiananmen) enlouquecidos, tentando apagar o fogo, que já lambia a lateral esquerda da foto. Toda a área foi isolada e cercada por agentes policiais. Mega movimentação, que, em qualquer lugar do mundo, seria digna de manchete em primeira página. Em qualquer lugar menos aqui, claro. A mídia chinesa permaneceu calada, sem soltar um pio a respeito. Só no dia seguinte, a agência New China rompeu o silêncio... pra anunciar que o autor do gesto tinha sido preso.

    Chinês, 35 anos, interiorano (da cidade de Urumqi, no noroeste do país), ele atende pelo nome de Gu Haiou. Ou atendia. Gu Haiou não teve a chance de se apresentar ao mundo. Só sabemos que o protesto dele coincidia com o aniversário do histórico massacre de Tiananmen (que começou com uma greve de fome dos universitários e trabalhadores, em abril de 1989, virou uma macro-manifestação apoiada por centenas de milhares de pessoas, reivindicando democracia. E acabou, como já se sabe, com a repressão do exército entre as noites de 3 e 4 de junho – quando aquele homem desarmado enfrentou os tanques).

    O resto? Bom, Gu Haiou certamente não está num hotel cinco estrelas, desfrutado de massagens e banho quente. Deturpar a imagem de Mao é delinqüência grave por aqui. Haja visto o caso do jornalista chinês Yu Dongyue. Naquele célebre maio de 1989, em plena protesta popular, ele resolveu jogar ovos contra o mesmo alvo. Foi condenado a 16 anos de prisão e só saiu ano passado, completamente enlouquecido, sem dizer lé com cré.

    Já a foto de Mao... Está intacta e impoluta. Quem passa agora mesmo por Tiananmen não vê nem rastro do fogo de sábado. O gigantesco retrato do soberano foi devidamente substituído por uma cópia (segundo testemunhas, num brevíssimo espaço de menos de 20 minutos!). Aliás, dado curioso: existem várias reproduções da mesma imagem. Todas feitas a partir do original, pintado em 1950. Rola um rodízio permanente. Razão pela qual a foto do homem está sempre impecavelmente limpa apesar da notória poluição de Pequim.

    09/05/2007

    Etiqueta social

    Cuspiu, pagou. A partir desta semana, o governo chinês instituiu uma nova regra cívica: quem cospe no chão, aqui em Pequim, é multado. A idéia é ir treinando o pessoal com lições de etiqueta pra “inglês ver”. Até as olimpíadas de 2008, as autoridades esperam que os cidadãos abandonem hábitos como o de escarrar, gritar em público ou jogar lixo no chão.

    Mas não pense você que eles mesmos vêem esses modais como falta de educação. Não, senhor. Cuspir é quase sinônimo de saúde. Quando querem ejetar saliva, o normal é que limpem bem o pulmão com aquele sonoro “rrrrrrrrrrrrrrrrr” – que vai dragando catarro, pigarro e demais mucosidades do fundo da alma. Quem já veio à China sabe: Entre os chineses também não é um problema, por exemplo, arejar os gases, arrotando. Mulher, homem, criança. Se sentiu travado, bota pra fora e segue em frente. Com a mesma naturalidade com que também tiram meleca. A qualquer hora do dia ou da noite, sem constrangimentos. No trânsito, sempre que você olha pro carro do lado, encontra alguém com o dedão enfiado no nariz. Diz um amigo: “É a poluição. O ar sujo produz mais meleca!”. Aliás, um clássico chinês é a unha gigante do mindinho. Estilo Zé do Caixão – sabe como? 99,9% dos motoristas locais deixam a garra crescer. Mas só no mindinho. E eu ainda me perguntava: “Por quê? Tá na moda?”. Foi uma amiga que acabou com minha ingenuidade: “Hello-oo! É pra tirar a cera do ouvido!”. Falando nisso, decidimos lançar um produto novo: Cotonetes em forma de mindinho. Já vêm com a unha longa incluída. Não é perfeito? Os caras não precisam manter a manicure. Podem cortar a unha real e comprar nosso cotonete. Vários deles! Pra deixar um no carro, outro no banheiro... Vamos ficar ricas ;-)

    E, sir vous plâit, chéri, não faça essa cara de nojo. Aqui na China, estamos em outra latitude do planeta. Outro mundo, outras regras. Nojento por essas bandas são outras coisas. Como comer queijo, por exemplo. A visão e o cheiro de um queijo embrulham o estômago de muitos chineses. Especialmente se for um daqueles queijos franceses com mofo, como gorgonzola, roquefort, brie, camembert. Quase vomitam.

    E furar fila? Pode?

    Pode, não. Assim como cuspir, sujar a rua ou berrar, desrespeitar a fila nas paradas de ônibus também está na mira das novas multas pequinesas. O “Escritório de Assuntos Civis de Pequim” (singelo o nome, não?!) é o responsável pela patrulha. Desde semana passada, cinco equipes de inspeção do “Departamento de Administração” e do “Departamento de Promoção de Civilidade de Pequim” (atenção aos títulos!!!) estão vigiando o centro da cidade, atrás dos “infratores”. A famosa praça Tiananmen e redondezas são as aéreas mais controladas. Foi por lá onde, segundo a agência de notícias Xinhua, mais de 50 chineses já foram multados porque estavam "mau vestidos", ou se recusaram a eliminar seus “maus hábitos”. Além de aplicar essas multas – de 50 yuans (cerca de 13 reais) cada –, as equipes de vigilância também distribuíram 10 mil sacos para resíduos e colocaram diversos cartazes sobre o que não fazer em pontos turísticos, estações de trem e hotéis. Segundo Zhai Weihua, responsável pelo Comitê de Civilização no Espiritual do Partido Comunista da China, a campanha em prol de “condutas cívicas” é “uma tarefa de longo prazo”. E que venham os 550 mil estrangeiros esperados para as olimpíadas!

    30/04/2007

    Guerreiros imortais

    Momento cultural-turístico-instrutivo:

    Conhece os guerreiros de terracota (Bingma Yong)? Conferi ao vivo (semana passada, fui a Xi'An fazer uma reportagem) e tá constatado: os soldadinhos são mesmo uma relíquia arqueológica.

    Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO, eles somam umas 7.000 estátuas em argila, todas em tamanho real – tipo 1,8 m – feitas mais de 220 anos antes da Era Cristã. E descobertas, por pura casualidade, em 1974, por uns camponeses.

    Grande parte desse exército ainda está soterrada (as escavações continuam). Outros tantos viraram andarilhos internacionais e fazem parte de uma coleção que viaja por exposições mundo afora (inclusive já visitaram o Brasil em 2003). E a maioria deles fica à mostra exatamente onde foram encontrados.

    Os detalhes são impressionantes. Cada guerreiro tem expressões faciais diferentes. Os especialistas acreditam que retratam os verdadeiros guardas imperiais, indivíduo por indivíduo. Estão todos em posição de combate, com uniformes segundo o nível hierárquico. Os arcos, espadas, lanças e escudos encontrados também são autênticos. Aliás, algumas armas de metal ainda estavam afiadas. A ponta das flechas tinha chumbo envenenado. E os dentes dos cavalos que puxam as carroças foram moldados um a um. Literalmente, um “trabalho de chinês”!

    Xi'An

    Esse tesouro da arqueologia chinesa fica em Xi'An – que foi primeira capital da China (no centro do país, a 2 horas de vôo de Pequim). Mais especificamente nas redondezas do colossal mausoléu do imperador Qin Shi Huang, dentro de uma espécie de trincheira subterrânea que defende a tumba dele.

    O exército de terracota tinha a missão de acompanhar o soberano depois da morte (procedimento-padrão da época... com a “sutil” diferença de que, normalmente essa galera era sepultada VIVA junto com o imperador!!!). Ou os guerreiros de Xi'An tinham uma lábia incrível, ou constavam de um plano mais ambicioso. Ninguém sabe. O mandatário, na época, morreu antes de acabar a empreitada.


    Em tempo: Qin (pronuncia-se 'tchin') foi o primeiro imperador da China. Ganhou o trono com 13 anos de idade e assumiu o poder aos 21. Se declarou monarca absoluto e reinou - como não? - com mão de ferro. Constantemente se comparava aos deuses. Mandou degolar todo mundo que atravessou seu caminho e queimou os livros de literatura clássica “para eliminar a heresia”. Também confiscou armas e instalou um sistema legal cruel para punir criminosos. No meio tempo, resolveu deixar “um legado que perdurasse mais 1.000 anos”. Além de ter mandado erguer a célebre Grande Muralha, passou à história como o autor de um alfabeto único e de um padrão para pesos e medidas na China. Só morreu no intento, coitado, de conseguir a juventude perene (você vê? Já naquela época, a pressão era enorme!). Bateu as botas justamente a caminho da legendária “Ilha dos Imortais”, onde esperava encontrar um elixir pra vida eterna.

    Bom, se bem que, de certa forma, ele ficou imortal. Ou, senão, estaríamos, agora – eu escrevendo e você, lendo – sobre dele, mais de 2.200 anos depois?

    15/04/2007

    Pérolas aos porcos


    Três fatos introdutórios:
    • Trinta minutos (t-r-i-n-t-a-m-i-n-u-t-o-s) é o tempo que pode durar o orgasmo de um porco (na próxima encarnação, já sabe...)
    • Este é o ano do porco, segundo o calendário chinês. Aliás, ano do “porco dourado” - que só acontece a cada 60 anos
    • Quem nasce sob esta combinação é abençoado com muita sorte e bonança, segundo o horóscopo local (levado MUITO a sério por aqui)

    Uma previsão nacional:

    • Em 2007, vai haver um super baby boom. Como cada casal pode, por lei, ter um único filho, muita gente planejou o rebento para este ano, o ano do tal porco de ouro. De acordo com a expectativa oficial, só em Pequim, devem nascer 140 mil crianças. Quase o dobro da média, 78 mil/ ano.

    Recordando:

    • Os chineses são extremamente supersticiosos...

    E a dúvida que surgiu, entre estrangeiros que moram aqui, numa conversa de bar: “O lance dos orgasmos suínos favorece os chineses que copulam sob o signo do porco???”

    14/04/2007

    Um pássaro? Um avião?

    Passo pela sala e ¡QUE SUSTO! Tem um homem pendurado do lado de fora da janela. Imutável, ignorou meu assombro do lado de dentro, e continuou limpando o vidro com a típica parcimônia chinesa, como se trabalhar como um pêndulo humano no 28° andar de um prédio fosse a coisa mais natural do universo (...o que, de fato, parece ser nessa ‘surrealidade’ chinesa).

    Eu e meus botões: Esse ar blazé é só fachada (nunca melhor dito), ou o cara mantêm a sobriedade mesmo quando dá de cara com uma vizinha andando alegremente de calcinha pela casa?

    E Blogspot volta a ser acessado na China

    Não percam as cenas do próximo capítulo

    10/04/2007

    Nova modalidade de bloqueio

    Há alguns dias, o blogspot voltou a ser página non grata na internet chinesa. Mas, agora, rola um diferencial. Posso acessar minha conta, postar à vontade, modificar os textos, aceitar comentários, etc. Só não dá pra visualizar nada. Vocês vêem meu blog. Eu não. Incrível como a China consegue ser peculiar até na censura!

    A curiosidade chinesa


    Todas histórias verídicas de estrangeiros aqui em Pequim:

    Business man francês que veio à China pra fazer umas mudanças financeiras na multinacional onde trabalha. Imbróglio delicado. Mas ele chega munido de disposição, estatísticas várias, justificações com diversas casas decimais, diagrama de prioridades, blábláblá. Mostra tudo isso na reunião de abertura, quando agrupa, por primeira vez, as oito pessoas, todas chinesas, com quem vai trabalhar. A apresentação dura mais ou menos uma hora (u-m-a-h-o-r-a!) e detalha em profundidade os objetivos e desafios do novo plano. O tempo todo, os espectadores mudos, calados. O francês acha estranho, mas segue, delineando o sumário do negócio. No final, faz a pergunta do milhão: “Alguém tem alguma dúvida?”. Ninguém se manifesta. Ele espera, intrigado, já puxando um slide de power point pra defender os números mais conflitantes. Nada. Silêncio na sala. O francês insiste de novo... E eis, então, que um rapaz levanta o dedo. “Oh, sim! Diga”. E aí vem a interrogação: “Como se pronuncia seu nome?”. Nisso, outro, motivado pela iniciativa do colega, já emenda: “Você tem uma foto da sua família?”.

    Amiga inglesa recebe funcionário chinês da loja onde ela comprou uma estante. O homem tem que montar o móvel na sala, mas se recusa a fazer os furos na parede. As justificativas são bem ruins: “não tem espaço suficiente”, “esta prateleira ficaria melhor do lado de lá”, etc (É! Aqui eles têm essa mania de dar palpites em tudo!). A inglesa – que já está vivendo em Pequim há alguns anos e se defende bem no mandarim – mune-se de paciência e explica ao bom senhor que ela já pensou bem, que realmente prefere as estantes naquela determinada posição, que ele pode afastar o sofá pra se mover melhor, blábláblá. Rola uma discussão. E, quando ela já estava, enfurecida, trepada numa escadinha, mostrando ao homem que o trabalho era, sim, viável, ele pára de berrar, dá uma cutucada na perna dela e aponta, lá de baixo, pro porta-retrato em cima da mesa: “É você ali na foto?”.

    Brasileira (sim, esta sou eu!) está numa cafeteria, tentando se comunicar com a menina do caixa. Horas de diálogo na base do ‘chinglês’. Enquanto tento esclarecer que “capuccino médio” não é café simples (a funcionária já tinha tentado me dar um copo sem leite, depois, um de café com gelo e estava indo pra máquina botar outro tipo de café num copo maior), a fila vai aumentando e o pessoal atrás vai chegando cada vez mais perto (o que é algo MAIS QUE HABITUAL por aqui!!! Além de desconhecer o conceito 'fila-um-atrás-do-outro', a maioria do povo a-do-ra escutar conversa alheia – sem a menor cerimônia, como se tivesse no recreio do colégio). Já cansada daquela interatividade forçada, com um senhor que insiste em se apoiar em mim, outro que está praticamente contando o dinheiro dentro da minha carteira (de tão próximo e íntimo) e uma menina histérica que só fala (grita) em chinês, no meu ouvido, coisas que eu não entendo, perco a paciência e me debruço sobre o balcão. Pego a caixa de leite e aponto pro copinho que a chinesa tá preparando. Falo no meu ‘mandarim rústico’: “Keyi ma?" (Pode?). Êêê!!! Eureca! Ela entende! Sacode a cabeça três vezes, afirmativamente, enquanto o povo em volta (mais que participativo, àquelas alturas) entona, em coro, o clássico “aaaaaah!” de quem descobriu a pólvora. Pronto. Povo feliz. Cliente feliz. Funcionária do café feliz. Quando já tô indo embora, com meu 'complexo' capuccino COM LEITE na mão, a chinesa do caixa, muito meiga, pergunta se pode fazer uma pergunta. Na hora, penso "Ó, senhor! Novo round de chinglês". Acho que ela vai oferecer açúcar, dizer que capuccino com lactose é mais caro... Mas ela quer saber: “A cor do seu cabelo é natural?”.

    29/03/2007

    Chinelo velho tamanho GG

    Já dizia meu antigo professor do colégio: “tem sempre um chinelo velho para um pé cansado”. Na China, idem. E olha que, desta vez, o pé era ‘tamanho Itu’. O homem mais alto do mundo (sim, chinês!) acaba de casar-se.

    Bao Xishun andava desiludido, reclamando que não encontrava uma companheira pra juntar as escovas de dente. Segundo ele, o problema eram seus (nada menos que) 2,36 metros – atestados pelo Guinness.

    Solidarizada com o drama de Bao, a imprensa chinesa resolveu lançar uma ‘campanha cara metade’. Vinte candidatas à esposa responderam à chamada e a eleita foi Xia Shujian, uma “baixinha” de 1,68 metro, que trabalhava num centro comercial no interior da Mongólia. O namoro da dupla foi bem rápido – um mês –, mas deve ter sido intenso. A nova Ms. Bao afirma ter até esquecido a descomunal estatura do marido. Só tem olhos pra sua “amabilidade e consideração”. Pois é. Segundo aquele mesmo professor do colégio, “na horizontal, tudo se encaixa”.

    O amor é cego...surdo, mudo e sem tato

    Aproveitando a onda matrimonial, mais um recordista do Guinness, o homem mais peludo do mundo (coincidentemente, conterrâneo do mais alto!) também anunciou que vai se casar este ano. Yu Zhenhuan é cantor de rock, tem 30 primaveras vividas e nada menos que 96% (!!!) do corpo cobertos de pêlos. Conheceu a futura ‘Senhora penugem’ via internet. Será que ela tem webCam?

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    Em tempo de Guiness: Uma amiga-leitora escreve, contando que a cabeleira mais longa do planeta também está aqui! Pertence a uma chinesa chamada Xie Qiuping. Desde os 13 anos, ela não corta as madeixas. Já ostenta mais de 5,6 metros de cabelo!!! Só não apurei ainda se vai casar também. Imagina o cafuné do marido.

    27/03/2007

    Blog bloqueado

    O blog não pôde ser atualizado porque estava bloqueado. Foi a 3° vez, desde agosto do ano passado. Sabem todos: aqui bloqueiam-se e desbloqueiam-se sites como Blogspot e Wikipedia, segundo critérios muito particulares, que só os soberanos chineses conhecem em profundidade. Nós, meros mortais, simplesmente damos de cara com aquela mensagem impertinente de “Internet Explorer cannot display the webpage” e morremos de raiva (calados, pra não passar os últimas dias como mártir, numa obscura prisão chinesa). Se os 123 milhões de internautas chineses não reclamam e até Google, Yahoo e Microsoft se renderam à censura (aquele pacto polêmico com o governo chinês – quando os buscadores são acessados através de uma conexão local, os resultados passam por um filtro que lima as páginas web “inadequadas”, sem a menor cerimônia), quem sou eu pra especular sobre greve de fome, suicídio coletivo, seqüestro do embaixador americano ou indisciplinas coletivas do gênero? Melhor encerrar este post logo pra não perigar perder a conexão à internet, o telefone, a luz, a água, o gás... Mãe, você leva merenda pra mim na cadeia?

    15/03/2007

    Michael Ping Pong Jackson

    Noite no Suzie Wong’s, um bar/disco suuuuper cool daqui, onde rola a “lady’s night”, às quartas-feiras. Das 9PM às 11PM, só mulheres. Os únicos machos do ambiente são os garçons (uma ninhada escolhida a dedo). As ‘clientas’ são recebidas na porta com uma rosa e o primeiro – de uma série – de coquetéis servidos um atrás do outro, a ritmo frenético, todos gratuitos. O conteúdo das taças ninguém sabe. A ‘surprise, surprise’ faz parte do jogo. Mas este detalhe é secundário porque, na verdade, o ponto alto da lady’s night é o show, que rola no fim da noite.

    Sabe clube de mulheres ao vivo? Na linha. (Relembrando que Suzie Wong’s, há anos, é eleito o melhor point noturno de Pequim pelo Reader Bar and Club Awards. É aquele típico local de metrópole que tem fila na porta, onde todo mundo quer ser visto dentro). Eis que, neste contexto todo mudernoso, no meio de um monte de mulheres estilosas (com outfits que provavelmente estavam no editoral da Vogue, semana passada), de repente, a luz vai diminuindo, a música aumentando. E você vira testemunha de um espetáculo... como chamá-lo?... insólito.

    Dois rapazes chineses, fazendo caras e bocas num estilo pseudo sedutor. Um, trajado como um negão do Harlem de Nova York (só faltou o porte do Harlem, os músculos do Harlem, a cara do Harlem...). O outro, com chapeuzinho preto e camiseta transparente, parecia encarnar o Jackson Six, da rama asiática da família de Michael, Janete e os demais pimpolhos. Fazia até uma coreografia meio Break e usava sapatos pretos (que clamavam por uma mão de graxa) com meias brancas. Acabou a noite, lógico, apelidado de Michael Ping Pong Jackson.

    Agora: Por mais estranho que isso possa soar, o fato é que, os dois, juntos, rebolando que nem Chacretes e travestidos como estrelas da madrugada de Copacabana, causaram furor na boite. As mulheres estavam ensandecidas (ainda não sei se era teatro, deboche, ou se tavam levando tudo a sério mesmo). Como vivi aquilo de forma meio inesperada, não apurei. Só lembrei muito de uma amiga brasileira, que tem queda por tórax cabeludos (Cli, segundo depoimentos locais, peitoral peludo aqui é mais raro que trevo de quatro folhas!!!).

    E, pra encerrar a noite – de ladys – os lords se apresentaram no contesto, logo depois do freak show. Às 11PM em ponto, acaba o clima Harlem-Jacskon. Cinderela vira abóbora. Muda a música e os belos garçons desaparecem. Uns (feios) recolhem as taças – com drink, sem drink –, enquanto o porteiro abre o cortinão de veludo vermelho da entrada. Liberada a tourada, a multidão que tava na porta invade o local. Só homens! Uns centos deles. Adentram o salão com olhares de caçador. Uma fauna... Mas, aí, encerro o relato e tiro meu chapéu pro marqueteiro que implementou essa tal de lady’s night. Machista até a medula, o negócio deve render bons trocados. No início da noite, agregam-se as mulheres (e elas comparecem aos montes – bebida grátis, barmen galã, show trash com pretensão artística, música boa). Já os homens (dispostos a fazer fila, passar frio e abrir a carteira pra encher o bolso do dono do estabelecimento) se digladiam na perspectiva de esbarrar com alguma moçoila “aberta a novos relacionamentos”, depois de tantos coquetéis gratuitos. Dali em diante, de graça nem injeção na testa. Tudo passa a ser pago – e custa um olho da cara.

    12/03/2007

    O gordinho tá em todas

    Chama-se Qian, mas ficou célebre como “Xiaopang” (gordinho).

    Recebi tantos e-mails com fotos dele que resolvi postar aqui.

    Reza a lenda que o menino chinês tava de bobeira, um dia, ao acaso, quando alguém tirou uma foto dele – aquela, de uniforme da escola (aí ao lado). Trucaram a tal imagem e colocaram na internet. Daí pro mundo, foi um pulo. Xiaopang teve um sucesso meteórico. Ninguém nem sabe bem por onde ou como anda o rapaz atualmente (olha a foto mais recente também aí ao lado, no canto inferir direito). O certo é que essas bochechas enooormes e esse olharzinho desconfiado do Gordinho são muito populares internet afora. De Batman a Mona Lisa, o personagem deu até origem a um site dedicado a pessoas gordas, aqui na China: http://www.xiaopang.cn. Há uma comunidade de culto a Xiaopang!!! Mítico.

    Como diria Andy Warhol, são os tais 15 minutos de cada mortal.

    08/03/2007

    Caos inicial

    Falta “só” compreender (empiricamente) a dinâmica deste novo mundo. Sabe quando você disca números de telefone que sempre dão ocupado (porque não sabe que não precisa colocar o código da cidade na frente); pega um táxi pra ir ao restaurante e o motorista fica irritado (porque o endereço é a uma quadra dali); ou raspa o prato pro anfitrião ver que você está satisfeito/a (e ele coloca mais comida porque, na cultura local, quem faz isso ainda tá com fome)... Sabe? Pois é. Tô nessa fase. Ainda. São diários os 'abdominais do riso' com o cúmplice - que também tem passado saias justas memoráveis.

    Além do caos logístico em casa, rola uma constante sensação de que os dias voam e não fiz nada. De repente, o relógio já tá marcando 11PM, meia noite. Sem forças nem pra mudar de roupa, me atiro na cama e rezo a deus pra noite ser longa. “Se der, senhor, acrescenta também uma hora extra no dia”. Tenho 359 planos pra pôr em prática. Assim que a vida profissional tiver organziada, por exemplo, vou correndo me matricular numa academia de kung fu. "Em Roma, como os romanos" e aqui, como Bruce Lee (que nem bem era chinês, mas enfim). Sonho com a etapa em que já estarei falando mandarim, comendo escorpião e dominando arte marcial ;-)

    04/03/2007

    Chegada a full

    Já estou deste lado de cá do planeta, em franco processo de ambientação.

    Ficam pros próximos posts os contrastes da língua, comida, geografia e paisagem humana deste microcosmo singular. Por hora, ainda estou absorvida pelas novidades pessoais.

    Desta vez, pelo menos, o jet lag foi vencido de modo glamuroso: Nas mãos de um hábil massagista chinês. Além de cobrar módicos 135 yuans (37 reais) pela sessão – quase terapêutica – de alivio muscular, o sujeito ainda teve a cortesia de me confundir com Halle Berry, a Bond girl! Pena que levava uma hora pra formular frases em inglês (e eu, duas horas mais pra tentar soltar meia sílaba num mandarim ‘meia boca’). De qualquer forma, é grande a motivação no quesito “integração gramatical”. Em menos de 72 horas como residente local, já faço parte de uma turma de estrangeiros (um japonês, uma coreana, uma espanhola, um vietnamita e dois irmãos do Congo), estudantes de chinês. Jornada intensiva pra ver se a coisa pega no tranco e muita pré-disposição – coletiva – pra pagar mico, repetindo, incansáveis, sonoridades do gênero “uóóó xê xuêshaaaann”, como num coro mirim. Singelo.

    Animação também pra descobrir as particularidades do cotidiano e dar valor à globalização, que facilitou, por exemplo, a ida ao supermercado. Graças ao merchandising internacional, foi possível distinguir refrigerante de xampu, enlatado de biscoito canino e arroz de farinha. Só no caso do leite, deu bode. Desnatado, integral, de soja, de cabra, puro, com sabor, de vitaminas, animal, vegetal... Era muita opção pra pouca explicação (compreensível). Ainda ensaiei uma estratégia interativa, pedindo informação (via mímica) a uma funcionária. Mas, depois de receber uns berros pouco amistosos como resposta, resolvi ser prática. Trouxe um exemplar de cada cor pra provar todos e resolver, depois, qual o campeão de preferência. Abandonei também uns bolinhos chineses, apesar da embalagem colorida e atrativa. Imersão demais pra quem acabou de aterrizar. Apelei ao cúmplice, que insistia em provar de tudo: “Ai, vamos deixar pra comer comida de cachorro outro dia. Hoje já há grandes chances de estarmos levando leite de gato pra casa”.


    08/11/2006

    Mobiletes chinesas

    Recebi de um amigo, por e-mail. Junto das fotos, o comentário: "aí Ju, daqui a pouco vc estará em uma dessas..."

    hahahahahahahahaha... É isso mesmo! E mais: Os caras das motinhos (algumas são boas e velhas bicicletas com um motor malandro acoplado) passam - carregado de galinha, gelo, o que for - ao lado do magnata a bordo de uma Ferrari. Dois mundos que convivem naturalmente. Versatilidade na veia!

    02/11/2006

    Tóquio com Jequitinhonha

    Fechando a mala pra voltar pra Espanha, reconheço que adorei este primeiro contato com Pequim. Não vejo a hora de mudar pra cá (de mala e cuia, em março/07) e começar a viver todas essas “aventuras cotidianas”: a língua, as gigantescas diferenças culturais, a comida, o trabalho dependendo de um intérprete, etc, etc, etc.

    Fora as situações tragicômicas que o chinglês promove (só isso já vale uma viagem!), Pequim precisa ser vista ao vivo. É uma cidade "diferente" dos parâmetros ocidentais. Não se parece – eu achei – nem à China dos filmes e livros apresentados aí. O cenário é metade ciência-ficção (aquelas paisagens futuristas), metade documentário (a realidade sociológica batendo à sua porta). Como num cruze de Tóquio com o sertão nordestino!

    Tem panorama de megalópole, com arranha-céus, autopistas, muitos carros (muitos mesmo), bons restaurantes, centros comerciais luxuosos, várias dessas lojas que só se sustentam onde impera uma burguesia abastada (Prada, Bulgari, Gucci e cia – pudera: os multimilionários chineses já são dos principais consumidores de luxo no planeta), tem a sede de diversas multinacionais importantes, infra-estruturas sendo renovadas à velocidade da luz, conexões com outros países (vôos diretos, digo), produtos estrangeiros circulando no mercado, gente moderna, ritmo de vida de metrópole. Mas, em paralelo, é CADA jeca que se vê pela rua. Noooooossa!

    E, mesmo sendo brasileira, acostumada com as precariedades de um país que ainda tem muito chão pela frente, achei as desigualdades sociais gritantes. Enquanto os novos ricos desfilam em Audi ou Lamborghini, tá ‘Seu Ming’ aí, na maior penúria, comprando naqueles mercadinhos chinfrins, indo a banheiros ao estilo um-buraco-e-muita-mira, comendo inseto no ambulante, morando nos hutong (antigos bairros tradicionais, atualmente de classe baixa), dirigindo aquelas motos capengas e mantendo outros costumes desse naipe.

    Não descobri ainda se eles - os chineses - se dão conta dessa mudança brutal pela qual estão passando. É um fenômeno interessante, pra (vi)ver de perto. Aqui e agora.

    29/10/2006

    Churrasquinho de escorpião

    Reza uma lenda urbana que, certa vez, uma senhora passeava por Chinatown, em Nova York (há distintas versões), quando viu um cachorrinho à venda. Brincou com o animal, simpatizou, pediu o preço, pagou e só pediu ao vendedor que guardasse o novo mascote por mais meia hora, enquanto ela terminava o passeio. Na volta – surprise, surprise! – o cão já estava embalado. Cortado em fatias, com molho agridulce e enrolado em papel de açougue.

    Acho que carne de cachorro realmente consta no cardápio dos chineses, mas ainda não vivi a “emoção” de prová-la. Agora: já encontrei, lá nos mercados de rua do centro de Pequim (como o Donghuamen Yeshi, no bairro de Wangfujing), os famosos espetinhos de besouros, larvas, escorpiões, gafanhotos e cavalos marinhos (sim, leu bem! CAVALO MARINHO, minúsculos), tudo no palito. Eca. O pior é que os bichos (menos os marinhos, óbvio) estam VIVOS, SE MECHENDO! Todos já devidamente espetados (tipo os de salsichão em festa junina – sabe como?), só esperando o cliente escolhê-los para irem parar num balde de óleo fervendo – de onde eles saem “crocantes e gostosinhos”, direto pro estômago do freguês. “Diliiiiça”, né?!



    Para os apocalípticos de plantão: Tranqüilidade, minha gente. Toda essa fauna no espeto está do outro lado da “barreira invisível” que separa a galera dos olhos puxados e a dos olhos arregalados. Se você é gringo, não vão te empurrar os insetos como tira-gosto. Só se você quiser. O que não falta em Pequim são restaurantes de outras nacionalidades. E bons restaurantes. Além de ter comido no melhor indiano de todos os tempos, provei – e aprovei – um monte de tailandeses, coreanos, mongóis (onde servem “churrrasco mongol”, feito ali na sua mesa... Ai, nhaaaaaaaaami)

    Pirataria consciente

    Há quem veja na pirataria uma forma de boicote ao imperialismo das grifes famosas. Outros, uma ajuda às famílias de baixa renda. O certo é que, em Pequim, ninguém precisa de desculpa pra comprar sem nota fiscal. A pirataria está mais que institucionalizada.

    Existem mercados (leiam-se galpões) - como o Xiu Shui Market - onde vendem CD, DVD, objetos, roupa, sapato, mala, bolsa, carteira, assessórios, relógios, jóias... TUDO falsificado. De Armani a Prada, todas as marcas estão ali.

    E tem até uma espécie de "mostruário" extra-oficial com as fotos dos produtos (que não estão expostos). Você escolhe o que quiser à la carte. O vendedor some por cinco minutos e, quando volta, já reaparece com o tal artículo debaixo do braço. In-crí-vel. Parece roteiro de um filme clandestino.

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    A qualidade?

    Ah, malandro. “La calidad soy yo”. Mas, como consolo, fica a máxima de uma amiga: “Ao invés de uma calça dessas que me duram a vida inteira, compro cinco que rendem duas temporadas. Pago o mesmo e tô sempre divina de la muerte!”. Se precisava de um pretexto, já tem. Boas compras!

    Calculadora é power

    Sim, há vendedores que falam inglês (retifico, “chinglês”) em Pequim. Mas são minoria - especialmente no Silk Market e mercadinhos de pirataria do mesmo gênero. De qualquer forma, isso é apenas detalhe. O idioma não interfere tanto no processo de compra. Chinês tem alma de comerciante (se duvidar, faz negócio até usando a língua dos surdos-mudos) e sabe improvisar. Quando falha a fala, eles sacam a calculadora.

    A calculadora é o objeto mór, ali na Pechincholândia.

    Você nem abre a boca. Basta olhar pra alguma coisa, que o vendedor – ou vendedora – se mete na sua frente (passa por baixo do balcão, dá a volta, rodeia você, se joga pela lateral do reduzido espaço, se duvidar, até se liquidifica e ressurge – que nem assombração – a um palmo de distância do seu nariz) e apresenta a cifra em digital. Com a maquininha, eles indicam os valores – flutuantes – dos produtos. E não adianta fazer cara de ‘não, obrigado’!

    O sujeito– ou a sujeita – não se dá por vencido assim facilmente. Move aqueles dedinhos pequenos freneticamente em cima da calculadora. Em dois segundo, estica o braço na sua direção, apressado, e reapresenta a cifra digital. Não gostou? Pois, de novo. E de novo. E de novo. A calculadora quase batendo pino e o indivíduo ali, com a língua de fora, os dedinhos impacientes, quase tendo uma convulsão. Vale tudo pra não te deixar ir embora sem abrir a carteira.

    Pechinchar é o verbo

    Os preços dependem de vários fatores. Dependem do seu look, do seu papo e da sua disposição pra fazer teatro. Claro: porque não existe compra sem regateio. Num processo padrão, o vendedor parte com um preço absurdo; logo abaixa; faz cara de bravo; quase chora de desilusão; acende um isqueiro do lado da bolsa (ou mala, carteira, jaqueta, o que for) pra mostrar que aquilo é "couro de verdade"; estica o tecido pra provar que não rasga; muda de tática se você parecer um pouco assustado; fala "em voz alta" que você é um negociador sabido; sorri; conta histórias; te segura pelo braço; te olha candidamente; diz que você é lindo(a); pede uma moeda do seu país pra coleção particular dele; pergunta se quer tirar uma foto com ele... Um artista.

    Aliás, se você não quiser comprar nada, o melhor é nem chegar perto. Encostou na barraquinha, já era. Se pegar alguma coisa na mão, aí, meu amigo, prepare-se. É como se você tivesse declarado, de maneira muda, que gostou daquele ítem e está disposto a negociar. Em teoria, só falta acertar o preço. O vededor mais safo já nem aceita que você devolva o produto. Não pega de volta. Se você colocá-lo em cima da banca, ele te entrega o troço de novo. E fica naquele rame-rame: “100 yuans... Se quiser um desconto, faço por 90... Gostou? Vai levar? 70, vai... Vai, leva... Olha que lindo! É a sua cara... Como não vai levar? Não vai levar por que? Olha aí... Leva, vai... 50 yuans, agora. Tá na mão... Faço por 40, meu último preço... Peraí! Volta aqui, moça... Tá bom, eeeeeeeeeeei, paga 10... Aqui, ó... ei, moça, ei, ei. Vem cá,vem cá, volta aqui!”

    27/10/2006

    Massagem na alma

    Você abre as revistas dirigidas aos estrangeiros, aqui em Pequim, e dá de cara com duas, três, quatro páginas, inteiras, dedicadas à publicidade de massagens. Tem de tudo: blind massage, foot massage, massagem ayurvedica, massagem tailandesa, tui na, aromaterapia, massagens à base de ervas, de leite, de gengibre, green highlights, acupuntura... O cardápio é extenso.

    Resolvi provar a mais básica de todas: foot massage (reflexologia nos pés – que é super tradicional aqui na China e na Índia). A teoria é estimular as “zonas de reflexo” – determinadas terminações nervosas, em especial nos pés, mãos e orelhas – pra descolar um efeito benéfico em outras partes do corpo. A prática é você quase babando de satisfação. Enquanto aquele homem apertava meus pés, senti os olhos pesaaados, o corpo ia se desintegrando lentamente. Eu não conseguia nem falar. Tava em êxtase. Se aquilo não era o paraíso, garanto: estava na ante-sala do Éden.

    Boas notícias à classe proletariada

    Sabe aquela vida hedônica com a qual você sempre sonhou (eu, sim), mas nunca pôde levar porque o bolso não correspondia às exigências? Aqui, ela é possível.

    Existem incontáveis spas em Pequim. E tem pra todo tipo de budget (testei um, por exemplo, onde uma hora e meia de BOA massagem custavam módicos 110 yuans – equivalente a uns 30 reais – nada mal).

    A maioria dos spas – como o Bodhi (recomendação de uma amiga – aliás, ¡mil gracias, Lyla!) – tem diversas salas, adaptadas pra uma, duas ou várias pessoas (você decide se quer fazer massagem sozinho(a) ou acompanhado(a)). A decoração é sempre ao estilo oriental com umas cascatinhas de água, cortinas meio transparentes, algumas plantas, aquela musiquinha de “natureza” ao fundo. E mais: se você quiser, leva seus DVD’s. Tem uma TV privada em cada sala. Também estão incluídos no preço diversos belisquetes (salada de fruta, mini sanduíches, sucos naturais, etc). É só pedir, que eles te trazem. Como se você fosse um Bwana swahili!

    Enfim. Se os médicos, os taoístas, budistas, mestres de ioga, experts em artes marciais, concubinas e mil criaturas mais avalam os efeitos positivos da massagem, quem somos nós pra discordar?

    Ficou só faltando provar a blind massage. Tem fama de ser incrível porque os massageadores cegos seriam “naturalmente aptos” pro trabalho manual, já que estão acostumados a sentir o ritmo natural do corpo – ou algo assim. Viva o hedonismo!

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    Um pouco de sapiência

    Todas as massagens chinesas estão baseadas na teoria jing luo: o corpo é uma série de canais - os "meridianos" - que transportam o sangue e o (energia). Massagear esses canais e manipular determinados pontos faz com que o qi flua corretamente e os órgãos se regulem. Libera o sistema respiratório e o digestivo da pressão interna e restaura a harmonia yin/yang do corpo. Pra aqueles na última fila que já estão com os braços levantados, prontos pra desqualificar esta pseudo-ciência, um conselho: relaxem e aproveitem. Uma massagem bem feita pode equivaler a uma passagem pro nirvana.

    Em tempo: O mercado de “saúde e beleza” na China está super explorado. A receita gerada por esta indústria ronda os 168 bilhões de yuans (uns 44 bilhões de reais) anuais, segundo a Câmara de Comércio do país. Excelente, pessoal! Conte comigo pra aumentar essa cifra. Serei uma serva fiel à seita.

    Como dizia, os contrastes...

    Aqui, parece ser tudo "8 ou 80". Quando é luxo, é um luxo descomunal (nunca fui tão bem tratada num hotel como neste). Os ricos ostentam mesmo. Estão incondicionalemnte orgulhosos do que conseguiram acumular.

    Agora: Quando é a vez da pobreza, sai debaixo. Ainda não consegui descobrir se é simplicidade, ou se o que falta é infra-estrutura mesmo (tendo a crer que é o segundo, mas, por experiência - um marroquino me passou um sermão, por isso, certa vez - vou levar em conta a possibilidade de não estar à altura pra entender os critérios/gostos de culturas que não conheço bem).

    De qualquer forma, uma imagem vale mais que mil palavras. Reparem no banheiro aí em cima. É o típico WC chinês dos locais públicos, como pontos turísticos. Ao vivo, fica ainda pior porque o cheiro condiz com a estética.

    Traduções toscas

    Essa saiu na Folha: As autoridades chinesas têm se desdobrado para tentar erradicar o "chinglês" das placas bilíngües que se tornaram obrigatórias em Pequim, para facilitar a vida dos visitantes que forem ao país por causa dos Jogos Olímpicos de 2008.

    Traduções toscas do chinês são muito comuns na cidade, criando situações inusitadas. Foi o caso de um folheto distribuído a turistas que os convidavam a visitar o Parque das Minorias Étnicas. Na versão em inglês o local foi chamado de
    Racist Park (Parque Racista).

    Em estradas, é comum uma advertência para o motorista tomar cuidado com a pista molhada. Em inglês, porém, o asfalto ganhou vida, e a placa diz que "a pista escorregadia é muito astuta".


    26/10/2006

    Tudo igual

    Sabe essa mania que ocidental tem de achar que asiático “é tudo igual”? Um tapa com luva de pelica:

    Perguntei à menina da agência imobiliária que está me ajudando a achar casa em Pequim qual é a origem do proprietário de um apartamento me interessou. “Hummm. É italiano... Não. Acho que é alemão. Ou é italiano?”. Ficou na dúvida.

    Se eu não tivesse passado 10 dias seguidos com ela – e tivesse atestado como a mocinha é metódica, organizadíssima e super competente no que faz – acharia que é meio avoada. Porque, convenhamos, pra quem vive do lado oeste do mundo, confundir um italiano com um alemão é difícil.

    Mas, eis que, dias depois, surge ela com a resposta: “O cara é sueco”.

    Moral da história? "Esse pessoal de olho arregalado é tudo igual"!

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    Amigos étnicos

    Já levava quase duas horas dentro daquele maldito shopping – almoço, café e uma busca surreal por óculos graduados (que, aliás, depois conto como acabou!). Durante todo aquele tempo, só tinha cruzado com residentes de Pequim ao estilo mais puro: feições asiáticas e um chinglês incompreensível. Eis que, entre uma batalha e outra pra entender o povo, vejo dois rapazes e uma menina ocidentais, andando no corredor. Tava exausta, mas agi por impulso. Levantei a mão, esbocei um daqueles sorrisos de alegria genuína e dei um tchau todo animado. Fui prontamente retribuída na mesma moeda. Eis que meu cúmplice olhou pra eles, olhou pra mim, outra vez pra eles... Me perguntou, sem entender nada: “Vocês se conhecem?” hahahahahahahahaha. Não! A verdade é que não tenho i-d-é-i-a de quem eram aquelas pessoas (nem vice-versa). Mas é instantâneo. Você tá lá, no meio de um monte de gente fisicamente diferente, sem conseguir se comunicar com eles, na maior luta. Quando vê um ocidental qualquer (paraguaio, aborígene, finlandês, vale qualquer um), tem a sensação de que está reencontrando um primo-irmão.

    Back to the future

    Como todo mundo sabe, a Ásia tem os relógios na frente, em relação ao resto do planeta. Com Barcelona, a diferença é de seis horas (com o Brasil – região sudeste – são nada menos que 11 horas!). Foi nessa defasagem temporal que uma amiga começou a conversa pelo telefone, ontem: “Oi! Tô ligando do passado”.

    “Me chinese, you western”

    Exotismo na China é ser western (como nós todos somos classificados por estas bandas – brasileiros, suecos, bolivianos, australiano... tudo no mesmo saco). Olhos redondos destoam bastante por aqui. Se forem azuis, então... Prepare-se. Você vai aparecer nas fotos de muitos turistas locais.

    Um colega alemão que também está de mudança pra cá contou que saiu na rua com o filho, de um ano e meio – um menininho loiro, cabelo quase branco, tooodo clarinho – e ele virou a sensação da calçada. Os chineses se aproximavam, olhando impressionadíssimos pro guri. As crianças chinesas inclusive vinham tocar o alemãozinho. Não deviam estar entendendo nada. “Papi, quem é esse plutanês???”

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    E.T. Phone Home

    Tô quase captando como se sente um extraterrestre na terra. Enquanto nós – ocidentais – investimos (muito) tempo e paciência nos grelhando na praia (aí), aqui, abre qualquer solzinho de nada e as mulheres piram. Empunham sombrinha, vestem um casaco, botam chapéu. NINGUÉM quer ser moreno, não! Isso é sinônimo de caipiragem. Só interiorano tem a pele queimada. O jet set urbano, chique mesmo (“da hora”), ostenta orgulhoso uma pele de porcelana. L'avez-vous compris, mon cheri?

    MSN Messenger mascarado

    Um amigo que anda lendo sobre as aventuras (pum, poluição) daqui, mandou isso:

    Ri tanto...

    Peido grupal

    Impressão só minha ou, de quando em quando – assim, do nada –, nas ruas de Pequim, bate uma marola fétida?

    No início, pensei q era pum. Pum humano mesmo. “Sei lá, ué. Com tanta gente circulando (e comendo essas coisas que sabe-se lá como acabam, depois de digeridas), vai ver, são flatulências coletivas”, pensei. Mas não é possível. É possível? Tanto pum assim não dá, né?!

    Tô trabalhando com outras hipóteses, agora. Passei a especular com a poluição do ar mesmo. Será que é isso? Ou as muitas obras, material de construção, encanamento rachado. O cheiro vem daí? Será? Muito lixo transformado em gases. Não sei. Só sei que o odor rola. E como rola. Não é paranóia do meu nariz!

    Deadline pra gringo ver

    Sabia que em julho de 2007, TODAS as construções em Pequim têm que parar? Ou acabam antes do prazo, ou suspendem os trabalhos – até o final das olimpíadas. Decidiu o governo chinês (aliás, amistoso, não? A linha deles é sempre esta: “ou vai ou racha”, pra tudo). Querem que o ar da cidade esteja mais “limpo”, antes da grande data. E calcularam que, pra isso, vão precisar de um ano sem obras na metrópole.

    Realmente, só assim mesmo, porque Pequim nunca teve uma política séria de proteção ao meio ambiente. Carece de árvores, flores, brisa marinha, montanhas no horizonte, céu azul, coisas assim. Aliás, deve estar na lista das urbes mais poluídas do planeta. Tem MUITA poeira, guindaste, escavadeira, britadeira; ninguém faz coleta seletiva do lixo; os engarrafamentos homéricos rolam diariamente; a frota de carros tá engolindo as bicicletas paulatinamente – inclusive dá muito mais status dirigir motores potentes que pedalar –; a maioria dos edifícios é super iluminado – alguns têm até “show” de luzes noturnas –; nos hotéis de luxo o consumo energético é o mesmo dos tempos de Mao; os 15 milhões de habitantes veneram o consumismo e a estética urbana da megalomania... enfim, consciência ecológica zero.

    Mesmo assim, o governo chinês tá empenhado em promover esses tais "Jogos Olímpicos Verdes", em 2008. Como futura residente deste “enorme canteiro de obras”, agradeço. Até agora, tive a impressão de que desenvolvimento sustentável não é um conceito exatamente em voga por estas bandas.

    Tudo é força, mas só a China tem poder

    Embaixo da janela de um dos apartamentos que visitei (pra alugar), tinha uma obra - uma extensão enorme, colossal, mas sem um único metro de altura levantado. Me lamento com a corretora: “Morar em cima de uma construção, não dá!”

    Ela: “Não se preocupe. Quando você vier pra Pequim, isso já será um lago”.

    Eu: “Ein?”

    Um lago.

    Pergunto: “Daqueles com água, peixes?”.

    Ela não entende nada. “É”

    Me desculpo e aclaro: “É que lá de onde eu venho, só Deus faz lago”. E, mesmo assim, só durante aqueles sete primeiros dias da criação. Hoje em dia, nem a linha nova do metrô o Cara consegue agilizar.

    24/10/2006

    Chinglês II – “Ô, missão”

    Já é dureza entender que “gunimori” significa good morning (bom dia), “souzan” é thousand (mil), “marréupiu?”, may I help you? (posso ajudar você?) e "gud" é cold (frio). Mas, pior que isso, é perceber que você também está embarcando nesse trem.

    Pra facilitar a comunicação, pouco a pouco, a gente vai se adaptando ao estilo dos chineses. Ao invés de dizer “the sky is blue” (o céu está azul), já olha pra cima e solta: “sky blue” (céu azul).

    Aquela famosa lição de inglês pra iniciante (“the book is on the table”), aqui, deve soar a sofisticação lingüística. Eles encurtariam logo: “book table”. E ponto. Até porque, em chinês mandarim, a coisa vai, mais ou menos, pelo mesmo caminho.

    Adeus preposições, artigos, verbos de ligação e “detalhes” deste naipe. Bem-vindo ao chinglês uga-buga de Pequim!

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    “Relaxar e gozar”

    Virou um lema. Com isso, já estou em plena forma. É o abdominal do riso. Trabalha muito a musculatura!

    E outra vantagem: Sabe aquelas baixarias de peão de obra? Aqui, não ofendem. Ontem, passei em frente a uma construção e a ‘classe obreira’ já começou a soltar as abobradas-padrão. Me acompanhava uma chinesa (corretora que tava mostrando uns apartamentos pra alugar). A moça andou mais rapidinho e ficou meio brava. Olhei pro povo, falando “&^%#@#@” e fiquei ATÉ CURIOSA pra saber o que tava sendo dito. Quem diria...

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    A síndrome do ping pong

    Lembra daquele filme Lost in Translation, da Sofia Coppola, com a Scarlett Johansson? Me sinto Bill Murray - só que em Pequim.

    Não é que seja difícil entender uma conversa entre eles. Difícil é alemão, turco, polonês. Chinês é impossível: “tandí-tchu, nová ro-olom piní-macssassi, rai-lam sanchichimã, rôôda xipi”.

    Foi esperando humildemente a tradução (em várias ocasiões - e sempre com aquela cara de “mas ein?”), que comecei a comparar a comunicação na China às partidas de ping-pong. Enquanto eles conversam animadamente, você fica lá, movendo a cabeça: direita, esquerda, direita, esquerda... O personagem A fala, o personagem B responde. E você estuda meticulosamente a linguagem não-verbal de ambos pra ver se consegue, pelo menos, saber quando vai haver uma pausa.

    O pior é quando eles riem. Você ri também? Fica sério? Pede uma tradução rápida (e ri depois)?

    Tenho rido de mim mesma, como nos programas de câmera oculta.

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    E esperando o tradutor?

    Eu e um chinês (àquela altura, já conhecido, até) estávamos esperando o tradutor, que tava bem atrasado. Numa situação dessas, quando as pessoas têm um idioma em comum, normalmente um puxa um papo-furado com o outro: "Calor, né?! Tá quente..."; "Pois é. Esse tempo tá louco!". Mas... E se ele não entende o que você diz (nem vice-versa)? Pior que péssimo.

    Primeiro, você olha pro céu (daquelas olhadas looongas, bem demoradas, pra ver se o tradutor chega nesse ínterim). Depois, passa a mão no cabelo. O chinês também disfarçando. Você abre a bolsa e vasculha o interior, fingindo que não encontra alguma coisa que está procurando (puro teatro). Na seqüência - e o tradutor não apareceu ainda! -, você passa o olhar rapidamente pelo chinês (que sorri amarelo, pra manter o clima) e finge que agora está limpando a blusa - aquela poeirinha providencial que surge na mente de quem precisa. Você espana, arranha, quase escova a blusa, arranca o botão... e nada do maldito traidor, digo tradutor.

    23/10/2006

    “Chinglês”

    Antes de falar da cidade, das pessoas e das amenidades mil, vamos abrir um capítulo à parte: A LÍNGUA

    Os pequineses, em geral, não dominam muita coisa além do mandarim. Quando encontro alguém daqui que “fala” inglês, entendo cerca de 60% do que a criatura diz. Isso com boa vontade, porque – convenhamos – é notória a dificuldade fonética dos asiáticos pras línguas ocidentais (e vice-versa, diga-se de passagem).

    Situações patéticas? Várias. No primeiro almoço, num restaurante coreano, o cardápio era inlegível. Menos mal que vinha com as fotos de cada prato. A dinâmica era apontar pra figura, que a garçonete anotava o pedido. Ela também não tava neeeeeeeem aí. Trabalhava no piloto automático. Perguntei umas três coisas em inglês pra moça e, em todas as ocasiões, ela só assentia com a cabeça. Podia ser: “Que dia é hoje?”; “Qual seu nome?”. “Você tem três pernas?”. A resposta invariavelmente era “sim, sim, sim”.

    A certo ponto, descansei. Passei a falar português mesmo: “obrigada”, “quero mais um”, “tá bom, chega”, etc. Português, inglês, francês, holandês, marcianês... Ali, dava tudo no mesmo. Descobri que o lance é ser pós-doutorado em mímica avançada.

    Com o motorista, a mesma coisa. Começando pelo nome do sujeito. ‘Seu Lee’ foi assim apelidado porque ninguém conseguiu entender muito bem como ele se chama (fica feio perguntar o nome da pessoa 10 vezes seguidas, né?!). É todo simpático e prestativo, mas não fala nada mais além de "ok" e "no" em inglês.

    No primeiro dia, entramos no carro e tava o maior calor. “Como pedimos pra esse homem ligar o ar-condicionado?”. Meu cúmplice, que arranha no mandarim, improvisou um “&$#*@!%!” com Seu Lee e, depois, virou pra mim, explicando: “Falei ‘frio’ porque é a única palavra que conheço. Não sei dizer 'ar-condicionado'”.

    Nisso, Seu Lee faz aquela cara-padrão de “Ahhhh, capitei” com o movimento rápido de cabeça (o tal “sim, sim, sim”... Que, na verdade – já descobri – é a resposta espontânea dos chineses pra TUDO q você pergunta a eles). Mas, na hora, pensei: “Maravilha, o homem entendeu!”. Ele mete a mão no painel do carro, liga uns botõezinhos e o vento começa a soprar.

    Tudo estaria perfeito não fosse porque os minutos passam e a temperatura começa a subir. “Esse homem ligou o aquecedor!”.

    Meu cúmplice: “Que isso? Claro que não! É o sol que tá muito forte. Já, já esfria, você vai ver” (não sabe dar o braço a torcer).

    Eu: “Não, ele ligou o aquecedor. Olha ali. Tá no vermelho, de calor”. (Claro: se alguém te diz que tem “frio”, o que você faz?).

    Nisso, o calor aumentando e Seu Lee só olhando, discretamente, pelo retrovisor. Continuava dirigindo, disfarçadamente, à espera de um novo comando. Dá-lhe calor.

    Meu cúmplice abre o dicionário, procurando qualquer coisa, enquanto eu já tentava “mimicar” com Seu Lee. Ele só assentia com a cabeça (deve ser um cacoete porque aquele homem claramente não entendia bulhufas do inglês). E o calor subindo...

    Sem vislumbrar uma solução pra aquilo no horizonte, me lancei sobre Seu Lee (“Com licença, querido”) e mudei o termostato. Ele, feliz, fez outra vez, aquela cara de “Ahhhhhh”, concordando com a cabeça umas 15 vezes seguidas. Mas, agora, com alegria autêntica. Pudera. De terno e camisa social, tava pegando todo o sol, direto do pára-brisa, lá no banco da frente, enquanto os dois retardados, no banco de trás, riam e discutiam num idioma incompreensível. Como um autêntico chinês, não reclamava de nada. Devia só se perguntar: “Essa gente é retardada?”.

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    Lap top

    No quarto do hotel, chega o menino, empurrando o carrinho com o jantar. Abro a porta e ele diz: “&*%$@&$!”

    Eu: “Sorry, I didn’t understand you...” (bem devagarzinho: so-rry-I-di-d-no-t-un-ders-tan-d-y-ou).

    Ele, de novo: “$#%!&... lap top”, apontando pra mesa.

    Eu tava mesmo usando um lap top, mas tava em cima de outra mesa, menor, cheeeeeia de papéis. Não era possível que ele tivesse dito lap top (até porque – convenhamos – pra quem sabe pouco de inglês, aquilo era vocabulário adiantado). Tento, então: “Desculpa. Não entendi de novo". E provo com duas alternativas: “Você quer colocar isso (a comida) em cima desta mesa? Ou quer deixar no carrinho?”.

    Ele: “Yes”.

    Percebeu o monólogo? Como achei que ele tinha um plano (por baixo dessa confusão aparente, acredito que são decididos), deixei o caminho livre. Sorrindo, já falei em português mesmo: “Fica à vontade, colega”. Estiquei uma mão, dando passagem e ele deu o jeito dele.

    Refeição feita, começam as especulações sobre o lance do "lap top". Teria ele dito "leave on top" (da mesa)?

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    Aloha!

    No primeiríssimo contato com a população local, dias antes (do aeroporto pro hotel), idem. O motorista, dando as boas-vindas, disse qualquer coisa como “Aloha!”. Pensei: “Uau! Que senhor mais moderno! Aprendeu inglês havaiano, de surfista”. Respondo: “Hello!”, com a mãozinha levantada. E meu cúmplice: “We’re fine, thanks”. Olho pra ele sem entender nada. “Ein?”. Ele esclarece: “O motorista perguntou ‘how are you’?”. Ah, tá.

    22/10/2006

    Do teórico ao prático

    Estou em solo pequinês! Vim, por 12 dias, pra fazer um “reconhecimento do terreno”, alguns contatos e pra achar um apartamento. Primeiras impressões? Várias. Mas o cansaço é enorme e o tempo, curto. Prometo posts para os próximos dias.

    11/10/2006

    Pra entrar no clima

    Semana que vem, farei minha primeira incursão à terra de Mao. Como de intregrar-se se trata, aprendi DUAS frases em mandarim:


    Em chinês, isso soaria mais ou menos assim: “wo jiao Juliana” (me chamo Juliana), “wo shi ba xi de ji zhe” (sou uma jornalista brasileira).

    Mas a verdade é que posso perfeitamente estar dizendo “sou de marte”, “quero um cachorro frito, por favor”, sem saber. Foi um ocidental, que estuda chinês há pouco mais de um ano, quem me ensinou. E tudo bem que “em terra de cego, quem tem um olho é rei”, mas, se o mandarim é realmente tão difícil quanto parece, capaz de o rapaz ter inventado qualquer história só pra ostentar sapiência. Nisso, tô eu aí, repetindo as lições com cara de boba-alegre, crente que tá abafando.

    05/10/2006

    Pequim, aqui vou eu

    Por dois anos, a partir do ano que vem. E tá batido o martelo!

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    O mundo em dois blocos

    O mais engraçado é ver a reação das pessoas quando você diz “vou me mudar pra China”. Há dois claros grupos:

    O primeiro é das pessoas que dizem coisas como “Uau! Que experiência interessante! Que aventura, blablabla”.

    O segundo, dos que te olham com cara de pena (cabeça ligeiramente inclinada, olhos lânguidos) e perguntam “Mas por quê?”. Ou diretamente querem saber “China?!?! Tá maluca?!?!?!?!”.

    A melhor foi uma amiga americana, de San Francisco, que só saiu dos Estados Unidos pra ir à Itália. Quando dei a notícia “Meu próximo endereço será em Pequim!”, a menina não tinha reação. Só aquele sorrisão amarelo (acho que ficou sem jeito – grupo 2). Depois de um breve silencio, encontrou o que dizer: “At least, you’re gonna be the tallest!” (pelo menos, você vai ser a mais alta).

    Um amigo em comum, que estava ao lado e acompanhou a cena, quis contrabalancear o clima: “Liga não. Essas são pessoas que, quando dizem que querem levar uma vida ‘selvagem’, deixam de tomar os comprimidos de vitaminas no café da manhã”.

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    PS: Pra quem chegou agora, esta blogueira que vos escreve se propõe a contar as impressões em primeira pessoa sobre a vida na China. Mais uma experiência em terras estrangeiras. Há seis anos, trabalho em Barcelona, na Espanha. Antes, teve também França (um ano, com um breve intervalo passado na Itália) e Califórnia/ EUA. Jornalista, pra manter a vida nômade, escrevo pra revistas e jornais do Brasil e da Espanha. Espero que gostem do conteúdo. Comentários serão bem-vindos! Comentários, críticas, sugestões, palpites, fofocas, sessões de auto-ajuda...

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